6.9.20

Batman: Universo


Quando ainda escrevia suas fantásticas histórias com o Demolidor e ninguém sequer cogitava que ele pudesse um dia deixar a Marvel, o roteirista Brian Michael Bendis era o sonho molhado secreto de todo leitor do Batman - meu, inclusive. Quando ele assinou com a DC, em 2017, parecia que o sonho se tornaria realidade. Bendis, porém, preferiu começar escrevendo Superman e Action Comics.

Em 2019, quando anunciou-se que Tom King deixaria a revista principal do Batman mais cedo (prevista para durar até a edição 100, sua passagem foi abreviada para terminar na edição 85), nova expectativa e nova frustração: em vez de Bendis, James Tynion IV foi colocado no posto de King.

Os fãs do Batman, porém, receberam um presente inesperado: embora não fosse assumir um título regular, Brian Michael Bendis foi escalado para uma minissérie do personagem, em seis edições. Será que, finalmente, os fãs teriam de volta o detetive ninja envolto em drama e mistério que aprenderam a amar? Porque, sabe, muita gente (e me inclua nessa) já está cansada de só ver o Batman investigar a si mesmo e ficar enfrentando inimigos "terríveis" - uma mulher que não quis casar com ele, por exemplo.


Batman: Universo foi anunciada pela Panini para sair completa, em encadernado. De capa cartão, custando vinte e poucos reais? Claro que não! Da mesma maneira vil que fez com o especial da Detective Comics nº 1.000, a editora meteu capa dura e pediu R$ 64. Esgotada uma primeira leva de pré-vendas a preço cheio, a Amazon baixou o encadernado para justos R$ 24. Aí, eu comprei. Para você, que se precipitou em comprar caro, mostrando que a Panini está certa em arrancar de você o máximo de dinheiro que consegue, minha sonora gargalhada.

Quem esperava ler algo na linha "Demolidor em Gotham City" se deu mal, em termos. Bendis escreve um Batman falastrão, até bem-humorado. Em vez de uma história noir pé-no-chão, como provavelmente queria boa parte dos leitores, temos uma história que começa policialesca (com um plano do Charada repleto de enigmas fuleiros para roubar um ovo Fabergé), mas acaba envolvendo um punhado de outras figuras ilustres do Universo DC, ganhando complexidade e ares de ficção científica.

Repleta de pirações "do bem", esta história é um tapa na cara de escritores (cof, cof, cof) "visionários" que acham que alguém, em sã consciência, desejaria ver um multiverso inteiro de versões estúpidas e espalhafatosas do Batman, quando tudo que a gente pede é uma história contada de maneira decente, que respeite o personagem e seus princípios fundamentais. Bendis prova que entende o Batman e que estamos certos em desejar reuní-los.


A eficácia do texto enxuto de Bendis dificilmente seria a mesma, porém, sem um artista do nível de Nick Derington. Com auxílio das cores de Dave Stewart, Derington entrega algumas páginas simplesmente espetaculares, carregadas de dinamismo e com cenários arrebatadores. Em sua arte, é possível identificar ecos de gente como Frank Quitely, Paul Pope e Matt Wagner.

Com James Tynion IV sendo elogiado pelos rumos que deu a Batman, e Peter J. Tomasi fazendo delicioso feijão-com-arroz em Detective Comics, fica difícil prever quando Bendis poderá assumir uma revista regular do Morcego. Mesmo que a gente ainda não possa se fartar, não há como negar que este belo "tira-gosto" chamado Batman: Universo deixa a gente salivando por mais.

14.8.20

X-Men 1


Por mais de uma década, foi fácil dizer que a Marvel, depois de experimentar o sucesso com seu próprio estúdio de cinema, ficou ressentida com a recusa da Fox em devolver os direitos de adaptação dos X-Men e, como represália, tentou elevar o prestígio dos Inumanos e jogar os mutantes no ostracismo, pra ver se o público minguava e a Fox cedia.

Só que isso é mais wishful thinking (aquela coisa que a gente queria que fosse verdade, mas não é) do que exatamente um fato. Quem leu quadrinhos Marvel nesse período, sabe: os Inumanos nunca tiveram chance real de rivalizar com os X-Men, porque lhes faltam apelo e carisma de protagonistas. Além do mais, como chamar de ostracismo uma fase comandada por Brian Michael Bendis, roteirista habilidoso e um dos arquitetos do que a Mavel se tornou nos últimos 20 anos?

Mesmo recentemente, já sem Bendis, alguns títulos dos X-Men sobressaíam pela qualidade dos roteiros, caso do Uncanny X-Men, de Matthew Rosenberg, e do X-Men: Red, de Tom Taylor. Sempre houve revistas mutantes minimamente interessantes - por mais difícil que seja, convenhamos, manter o alto nível num agrupamento tão numeroso de equipes derivadas, cada uma com sua própria revista.


Mas eis que, depois de seus históricos anos à frente dos Vingadores (e de um período sabático), a Marvel decidiu que caberia a Jonathan Hickman a tarefa de recolocar os X-Men no centro do Universo Marvel. Anunciadas e lançadas com alarde, House of X e Powers of X (aqui, reunidas na nova mensal X-Men, da Panini) são duas minisséries paralelas que visam a estabelecer as bases das aventuras mutantes.

A esta altura (mais de um ano depois do lançamento original), você já deve ter ao menos noção do que se passa: em Dinastia X, os mutantes fundaram uma nova nação sobre a ilha de Krakoa (ela própria, um mutante). O que difere esta iniciativa de outras, como a Utopia da fase de Brian Bendis, é que os mutantes não parecem uma comunidade pirata em busca de respeito: criou-se um idioma próprio, um conselho de governo e muita influência financeira para alavancar o sonho compartilhado de Charles Xavier e Magneto (sim, os dois estão lado a lado nessa). Em troca do reconhecimento de Krakoa como nação soberana na ONU, os mutantes oferecem à humanidade remédios que prometem melhorar e prolongar a vida humana.


Paralelamente, em Potências de X (que é o algarismo romano de 10, não o X do gene mutante), temos vislumbres do sonho mutante em quatro diferentes momentos: o passado (quando Xavier tem a ideia de ajudar a integrar os mutantes à sociedade e conhece a Dra. Moira McTaggert, figura essencial à trama); o presente (quando vemos os primeiros desdobramentos da proposta mutante); o futuro cem anos à frente (quando uma aliança entre homens e máquinas levou os mutantes à beira da extinção) e mil anos à frente (quando a vida na Terra se prepara para ascender a um novo plano de existência). O grande lance de Hickman é a sagaz maneira como estas quatro linhas temporais se influenciam e se complementam, mas, fique tranquilo: o que estamos testemunhando no presente não é realidade alternativa. É pra valer.

Obviamente, se não houvesse gente descontente pra atacar os mutantes em suas pretensões, não haveria conflito - e, pode crer, há um grupo de humanos muito descontentes, preparando uma resposta bélica sem precedentes, mas quem há de culpá-los, quando a alternativa é a extinção? Sim, a humanidade está novamente com os dias contados, após o fôlego recuperado com o massacre de Genosha e o Dia M.


Já na primeira edição, temos um belo exemplo do que é, sempre, um ponto muito alto da revista: as interações políticas de Magneto com humanos. Recebendo delegados de algumas nações em um dos habitats krakoanos, Erik Lensherr é um colosso da retórica, intimidando muito mais com palavras do que pelo uso de seus poderes.

Outro destaque são os muitos textos explicativos e gráficos, que facilitam a vida do leitor que está chegando agora ou voltando após longa ausência. Servem para abreviar a narrativa visual, elucidando questões de bastidores e resumindo trajetórias, além de esclarecer a ciência, a geografia e a hierarquia de Krakoa.

Planejada inicialmente para chegar às bancas em março deste ano, X-Men foi atrasada pela Panini em alguns meses, mas o resultado fez valer a espera. Não que um gibi de 100 páginas a R$ 25 seja barato, mas o capricho é evidente: papel de alta qualidade, capa com reserva de verniz e orelhas destacáveis que viram marcadores, além de um simpático "cartão-semente" de brinde, do qual espera-se brotar uma planta "krakoana". Tradução e adaptação, também, estão satisfatórias, sem os erros gritantes de gramática e revisão que irritaram tanto nos últimos anos.

Pude ler as edições americanas subsequentes e garanto ao amigo leitor: apenas melhora! Pelas quatro edições que devem durar, Dinastia X e Potências de X são a coisa mais empolgante que você lerá em 2020. Um ótimo momento para ser (ou voltar a ser) leitor dos X-Men.

* * * * *

X-MEN #1
Jonathan Hickman (roteiro), Pepe Larraz e R.B. Silva (arte)
Marvel/Panini - 104 páginas - R$ 24,90

3.8.20

The Umbrella Academy, Temporada 2



Mesmo portando defeitos, a primeira temporada de The Umbrella Academy foi um sucesso da Netflix em 2019. Uma série de super-heróis sem uniformes e mais focada nos suas interações pessoais do que em superaventuras parece um tiro no pé, mas UA tinha um bom equilíbrio entre drama e ação (sem falar do bom elenco e dos personagens interessantes). A primeira temporada foi encerrada com um gancho grandioso e expectativa para a nova temporada foi grande.

Antes de começar a ver a segunda temporada, eu já tinha visto memes ironizando a falta de novidades deste ano 2, mas tudo começa meio que contrariando essa escrita. Tudo bem, logo a gente descobre que os irmãos Hargreeves precisam impedir mais um apocalipse - desta vez, causado por sua presença na década de 60, mas isso passa como um detalhe desimportante, diante da construção de um cenário em que os irmãos foram separados ao chegar no passado e tiveram que começar nova vida.

Assim, temos Allison casada e participando dos protestos pelos direitos civis dos negros; Luther vivendo de luta livre e bicos como segurança; Klaus (com o fantasma de Ben a tira-colo) comandando um culto new age; Diego internado num hospício; e Vanya vivendo de favor com um casal numa fazenda, desmemoriada. Cabe a Cinco procurá-los e reuni-los em dez dias, para evitar o fim do mundo - o que talvez inclua interferir no assassinato de John Kennedy

Destas, a única subtrama realmente interessante é a de Allison. Com receio de usar seu poder após quase ter morrido, ela lidera um grupo de negros cansados da segregação, que deseja chamar a atenção do presidente para o problema, na ocasião de sua passagem por Dallas. Passando por situações revoltantes, Allison exibe um misto de resiliência e masoquismo (afinal, seria fácil mandar todo mundo fazer o que ela bem quisesse).

Os demais conflitos vão do tolo (Klaus) ao nulo (Diego, Luther), resvalando no farsesco em diversas ocasiões. Tudo bem, a série precisa ter bom humor, mas parece que já vimos tudo isso antes - e, sim, já vimos, e foi melhor. O problema da identidade de Vanya volta a ser uma das tramas centrais (aliado a uma subtrama LGBT que merecia um desenrolar mais caprichado), bem como o excesso de responsabilidade sobre Cinco, que parece ser a solução mais usada para qualquer crise.

A certa altura, caiu a ficha pra mim: novidade não é mesmo o forte desta temporada. Honestamente, mesmo isso não chegaria a ser um problema tão sério, se o texto não fosse ruim. Principalmente na reta final, existem momentos com soluções e diálogos constrangedores, quase no nível daquele final patético da segunda temporada de Titãs.

O gancho pra terceira temporada é interessante, mas, sinceramente, não estou seguro se me animo a voltar, não. A vida é muito curta e os catálogos de streaming, muito longos, pra gente se dar ao luxo de ficar vendo uma série correndo atrás do próprio rabo assim. Certeza que tem coisa melhor pra ver na própria Netflix, inclusive.

* * * * *

THE UMBRELLA ACADEMY (Temporada 2)
Netflix, 2020

14.7.20

Jukebox Encantada #1


U2
ACHTUNG BABY
(1991)

O U2 lançou seu primeiro álbum, Boy, no ano de 1980. Três anos depois, conheceu a fama mundial com War, de onde saíram os hits "Sunday Bloody Sunday" e "New Year's Day". A sedimentação da imagem messiância do grupo e sua consagração definitiva vieram com The Joshua Tree (1987). Em menos de dez anos, o U2 havia se tornado a maior banda do planeta. Em 1988, o U2 foi até pro cinema, com o rockumentário Rattle and Hum, que gerou seu último álbum (misto de estúdio e ao vivo) naquela década.

Como todo artista superexposto, o U2 chegou ao fim dos anos 80 com sua imagem desgastada e sua música resvalando perigosamente na mesmice. A postura messiânica, que rendia prestígio político (e, provavelmente, algum alívio para a culpa católica de fazer sucesso e enriquecer), também rendia críticas inflamadas. Em 30 de dezembro de 1989, durante o penúltimo show da turnê Lovetown, anunciaram para os fãs que a banda precisaria "ir embora e sonhar tudo de novo".

Bono (vocal), The Edge (guitarras), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria) foram de mala e cuia para Berlim, onde se trancaram em estúdio com os parceiros de longa data, Daniel Lanois e Brian Eno (produtores), para cunhar um novo som e uma nova atitude para uma nova década. Sessões importantes também foram feitas em Dublin, berço da banda.

Em 21 de outubro de 1991, o mundo teve seu primeiro vislumbre do novo U2, e o impacto foi imediato. Em vez dos arpejos delicados e duplicados que caracterizaram a guitarra de The Edge desde sempre, "The Fly" abria com um riff sujo e distorcido, acompanhado por uma marcação de bateria dançante como o U2 nunca foi. O vocal lânguido de Bono despejava um cinismo pouco familar para o fã que aguardava novas palavras de ordem para salvar o mundo. "Todo artista é um canibal, todo poeta é um ladrão / Todos eles matam sua inspiração e cantam sobre o luto". No vídeo, Bono, de couro preto dos pés à cabeça e enormes óculos escuros no rosto, em nada lembrava o bom menino ao qual estávamos acostumados.

Pouco menos de um mês depois, em 18 de novembro, chegava às lojas Achtung Baby, com "The Fly" e outras 11 faixas com a difícil missão de manter o U2 relevante e no topo - e, cara, como deu certo!

Obviamente, houve imensa gritaria por parte dos fãs puristas, que condenavam as mudanças no som e a aparente "desideologização" (se esta for uma palavra que existe) das canções. Para estes, o U2 tinha respostas que provocavam ainda mais: "a gente não sabia tocar"; "nos primeiros discos, eu pareço uma menina cantando"; "Adam tem o menor pinto na banda" (esta diz respeito a uma das fotos que estampam a contracapa do LP, na qual o baixista aparece em nu frontal, que acabou censurada em alguns lugares). O U2, o quarteto mais certinho do mundo, pasme, agora sabia rir de si mesmo.

Na capa e contracapa, dezenas de fotos do artista visual Anton Corbijn mostram a banda durante suas andanças em busca de inspiração: além de Dublin e Berlim, Marrocos também foi parada importante. Mais do que avidez turística, as fotos revelam inegável senso de diversão e relaxamento: além da já comentada nudez de Adam, os irlandeses, como se fossem artistas de glam rock, se permitiam usar roupas espalhafatosas (com muito couro, tachinhas e plumas) e alguma maquiagem.


Mais importante que tudo, porém, era a música. Nova, viva, pulsante.

A primeira faixa, "Zoo Station" despejava distorção industrial na guitarra, na bateria e no vocal: "estou pronto para soltar o volante!". A seguinte, "Even Better Than The Real Thing", abre com um riff forte de guitarra e tem um clima romântico rock and roll alto-astral. Na terceira, a calmaria chega com "One". Há teorias que falam da letra como sendo uma irreconciliável briga de casal; outros falam em um filho soropositivo discutindo com seu pai. Seja como for, a menos que você seja feito de pedra, é impossível não se emocionar com o arranjo irretocável ou a entrega apaixonada de Bono nos vocais.

A partir deste álbum, The Edge consolida-se como um "cientista" da guitarra, explorando sonoridades, impondo criatividade melódica aos riffs, com uso de pedais e efeitos que melhoraram sensivelmente seus registros. Criticado por não ser um guitar hero típico, daqueles que solam a velocidades espantosas, The Edge tornou-se um artesão de riffs que servem às canções, intrinsecamente simples, mas que soam elaborados, caso de "Until the End of the World", "Ultra Violet (Light My Way)" e de outras já citadas.

O baixo de Adam Clayton também pulsa alto, com linhas inventivas e dançantes, não raramente em primeiro plano. Larry Mullen também faz experiências percussivas inéditas na música do U2, como em "Mysterious Ways" (provando que o U2 sabia fazer dançar) e "Love Is Blindness".

Tematicamente, o álbum vai do alegre ao soturno em dois tempos. Pode-se comparar à vida de um casal muito apaixonado que, tendo brigado seriamente pela primeira vez (digamos, em "One"), jamais reencontra sua rota ou seu compasso. A coisa vai da confusão ("Who's Gonna Ride Your Wild Horses?") à bebedeira em busca de respostas ("Trying to Throw Your Arms Around the World"), chegando a abismos emocionais ao fim de cada uma das metades (ou lados) do disco, com "So Cruel" e "Love Is Blindness".


Achtung Baby gerou, ainda, a ambiciosa e vitoriosa Zoo TV Tour, na qual a banda percorreu o planeta ironizando a influência televisiva. A partir dela, o U2 tomou gosto pela hipérbole tecnológica, sempre criando palcos enormes e inovadores, como o imenso telão com arco da PopMart e a "garra" mecânica da 360° Tour. Por outro lado, gerou, também, uma tentativa meio patética do U2 de controlar o que a imprensa dizia sobre eles (manobra que já havia angariado antipatia para o Guns N' Roses, por exemplo). Por sorte, uma bobagem que não durou muito.

Seja como for, quase trinta anos depois, quem viveu pra ver o U2 emergir da crisálida como uma entidade completamente transformada dificilmente esquecerá o que a mudança representou para a banda e para o mundo da música em geral. Discute-se muito por aí se o U2 seria ou não Realeza do Rock - para muitos, eles não passam de uma boa banda pop - mas as proezas alcançadas com Achtung Baby certamente os qualificaram ao posto. É um desses momentos em que a História da Música toma um novo rumo.

* * * * *

U2 - Achtung Baby 
Lançamento: 18 de novembro de 1991
Produção: Brian Eno e Daniel Lanois

01 - "Zoo Station"
02 - "Even Better Than the Real Thing"
03 - "One"
04 - "Until the End of the World"
05 - "Who's Gonna Ride Your Wild Horses?"
06 - "So Cruel"
07 - "The Fly"
08 - "Mysterious Ways"
09 - "Tryin' to Throw Your Arms Around the World"
10 - "Ultra Violet (Light My Way)"
11 - "Acrobat"
12 - "Love Is Blindness"

13.7.20

Batman: As Dez Noites da Besta


Virei um mentiroso reincidente. Muitas resenhas que escrevi tocaram no sensível ponto do alto custo e do altamente desnecessário alto luxo de algumas publicações da Panini Comics, e eu meio que me desculpava por insistir no assunto. Retiro as desculpas: eu vou insistir no assunto, enquanto ele for um problema (e é, por mais que haja toda uma geração de leitores que acham capa dura mais importante do que uma tradução bem-feita, o que já é outro problema).

Sem entrar no mérito de como a DC Comics e/ou a matriz italiana da Panini exigem que a filial brasileira publique certos materiais, não existe motivo para que este Batman: As Dez Noites da Besta, por exemplo, custe ridículos R$ 94,00. Embora ele seja a cópia fiel de um volume que compila as primeiras histórias do personagem após a Crise nas Infinitas Terras, existe uma versão que reúne apenas a história principal, em quatro capítulos. Podia ter saído num capa cartão honesto, custando um quinto desse preço absurdo. As outras histórias, por mais agradáveis que possam ser, estão longe de serem clássicos imperdíveis, e podíamos passar bem sem elas.

As coisas são assim, hoje em dia: o gibi que vale 50 reais é lançado por 100, a gente compra por 60 na promoção e tem que achar bom, porque é isso ou nada. Depois, ainda vão reclamar e dizer que a culpa é de quem lê em scan.



Mas, ei, e a história?

Vista pela primeira vez em terras tapuias no distante 1989 (um dos muitos e maravilhosos lançamentos especiais da Editora Abril, por ocasião dos 50 anos do Batman), As Dez Noites da Besta traz o herói às voltas com um vilão russo (era 1987, plena Guerra Fria, e, apesar dos sinais de abertura do então presidente, Mikhail Gorbachev, russo de gibi era quase sempre malvadão). Anatoly Knyazev, codinome A Besta, é um assassino da KGB, supostamente renegado e agindo sozinho para eliminar as dez mentes por trás da IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica, um programa militar real, que ficou conhecido como Guerra nas Estrelas). Implacável e apelidado de KGBesta, o assassino vai acumulando vítimas às dezenas, apesar dos esforços do Batman. Quando finalmente é encarado, o KGBesta revela-se um oponente muito mais preparado do que o Batman poderia supor.

Apesar de datada em seu contexto histórico, a trama é pura adrenalina, com Jim Starlin (roteiro) e Jim Aparo (arte) em grande fase, sustentando bem a releitura. Era um Batman mais detetivesco e crível, falível até, que se estropiava nas brigas e dependia menos de tecnologia. O uniforme, com azul e amarelo berrantes da era pré-digital, é basicamente uma roupa e nada mais, sem sensores ou armas embutidas. O Batman só podia contar com arpéu e corda, uns batarangues, e um ou outro truque que coubesse no cinto de utilidades (e o Robin da vez, o esquentado Jason Todd). Apesar das limitações, ele dava um jeito, e essa versatilidade é um dos traços que nos fizeram amá-lo. Hoje em dia, além de máquinas impossíveis que fazem quase tudo pra ele, o Batman ainda pode contar com soluções Deus Ex Machina de seus autores birutas (sim, estou falando com vocês, Snyder e King).



Além da memória afetiva da leitura em si, esta história ainda me traz a recordação de uma das primeiras reações de aprovação por parte de gente que vivia criticando minha mania de ler "coisa de criança" (e olha que eu só tinha 15 anos). Emprestei minha edição a um amigo, e seu irmão, que ria de meu hábito, pegou o gibi pra ler e decretou: "Aquele gibi do Batman que você deixou aqui ontem é excelente! Tem outros tão bons assim?" Claro que tinha. Era uma época em que gibi do Batman era aposta segura. Curiosamente, o personagem estava sem revista mensal desde o ano anterior e só voltaria a ter uma no começo do ano seguinte.

Qualquer que seja sua sede a matar (de curiosidade ou de nostalgia), Batman: As Dez Noites da Besta é uma boa pedida, desde que você não precise vender um rim (você só tem dois) ou sua alma (talvez ela não valha tanto assim) para tê-la na estante.


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BATMAN: AS DEZ NOITES DA BESTA
Jim Starlin (roteiro), Jim Aparo, Mike de Carlo e outros (arte)
DC/Panini - 324 páginas - R$ 94 (preço sugerido)

19.6.20

Cinco HQs para começar a ler BATMAN


Este pequeno guia tem a intenção de facilitar a vida do leitor que deseja iniciar-se nas aventuras do Homem-Morcego, mas tem receio de ficar perdido. Bom, eu preciso avisar: você VAI ficar perdido, mas tudo bem. Batman é um personagem com oito décadas de história e tem gibis bacanas às pencas. Muitos fatos marcantes já aconteceram em suas histórias. Alguns ainda são lembrados, outras foram esquecidos ou mudados. Tudo bem. Você não precisa saber tudo sobre o Batman pra começar a ler suas aventuras.

GASTANDO POUCO, você pode comprar uns gibizinhos espetaculares, com tramas fechadas, que ajudaram a sedimentar o mito do Batman como o conhecemos. São títulos que estão sempre ganhando reimpressões, então, vale a pena acompanhar os lançamentos da Panini Comics pra saber quando eles estarão disponíveis novamente (ou correr lojas e sebos virtuais para tentar achá-los).

1 - BATMAN: ANO UM - Considerada a história de origem definitiva do Morcego, este clássico de Frank Miller e David Mazzucchelli traz os primeiros passos de Bruce Wayne no combate ao crime e a chegada do honestíssimo James Gordon à corrupta polícia de Gotham City. Para mim e para muita gente, a melhor história do personagem.

2 - BATMAN: A PIADA MORTAL - Escrita pelo mestre Alan Moore, trata-se de uma história em que o Coringa tenta provar que basta um dia ruim para um homem bom (no caso, Gordon) perder a razão. Enquanto o vilão põe em prática seu plano, vemos flashbacks de sua vida antes do acidente químico que modificou sua aparência e sua mente para sempre.

3 - BATMAN: O FILHO DO DEMÔNIO - Por muito tempo, esta história foi considerada como sendo um "Elseworld" (uma versão alternativa ou exercício de imaginação sobre o personagem), mas isso mudou quando Grant Morrison criou Damian Wayne, o atual Robin. Leia esta história para entender por quê e para conhecer Ra's Al Ghul, um dos maiores inimigos do Morcego.


GASTANDO MUITO, em lugar do óbvio O Cavaleiro das Trevas (que é, afinal, a história de um possível futuro), eu gostaria de recomendar um encadernado volumoso e uma série de encadernados menores, ambos ainda encontrados com relativa facilidade. Eles retratam a rede de apoio de Bruce Wayne no combate ao crime: sua bat-família e a polícia de Gotham City.

4 - BATMAN & ROBIN: EDIÇÃO DEFINITIVA - Houve momentos em que Bruce Wayne estava morto ou desaparecido, e outras pessoas precisaram assumir o manto do Morcego. Nesta fantástica série, coube a Dick Grayson, mais uma vez, honrar o legado de seu mentor, junto com o já mencionado Damian Wayne. Aventuras estranhas, divertidas e perigosas que tornaram Damian o Robin favorito de muita gente.

5 - GOTHAM DPGC 1 a 4 - Reunida em quatro encadernados, temos uma espetacular série policial em que o Batman quase nunca aparece. Escrita pelos mestres Ed Brubaker e Greg Rucka, Gotham DPGC mostra os policiais na linha de frente do combate aos vilões do Batman e à corrupção na própria polícia. O volume final tem ligações com um mega-evento, mas nada que prejudique a leitura dessas histórias absolutamente arrebatadoras.


BÔNUS
BATMAN, revista mensal, e DETECTIVE COMICS, encadernado trimestral.

Aqui, no Brasil, aproxima-se do fim a fase escrita por Tom King na revista mensal. Quando King sair, entra em seu lugar o escritor James Tynion IV. Em geral, a troca de autores é um bom momento para começar a ler um gibi de super-herói, pois cada escritor quer trazer seu toque pessoal ao personagem. Então, se você deseja começar a ler a revista regular do Batman, será bom começar junto com o Tynion - provavelmente, na edição 42.

Detective Comics, que já foi uma mensal por aqui, reúne cerca de seis edições originais a cada número, com as ótimas aventuras escritas pelo sempre competente Peter J. Tomasi. A terceira edição está prestas a sair, mas vale muito a pena correr as lojas reais e virtuais em busca das duas primeiras.


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Espero que estas dicam sejam úteis pra você, amigo(a) leitor(a), e que o Batman esteja entre seus favoritos. Lembre-se de sempre procurar por promoções na internet - quadrinho virou uma coisa cara! Não esqueça, também, de manter a mente aberta para a) as maluquices das editoras (a Marvel também faz dessas) em mudar o passado de personagens ou de seu universo inteiro; e b) aventurar-se com outros personagens e gêneros de quadrinhos. Variedade é sempre bom-vinda!

17.6.20

The American West


A conquista do oeste dos Estados Unidos é um período histórico excepcionalmente rico. Não por acaso, é o mote de incontáveis filmes, séries e livros. É um tema quase universalmente apreciado, a ponto de existir arte sobre ele em várias outras culturas, além da estadunidense.

The American West é uma série semi-documental (apresenta fatos através de encenações com atores) em oito capítulos, produzida por Robert Redford - ele próprio, protagonista de clássicos do cinema de western, como Butch Cassidy (1969) e Mais Forte Que A Vingança (1972). Começando ao fim da Guerra Civil Americana (aquela em que o norte abolicionista se impôs sobre o sul escravagista), apresenta, de forma lúdica e muito bem-encenada, diversos episódios cruciais da história dos EUA: o segundo massacre da população indígena, o tiroteio de OK Corral, a Ferrovia Transcontinental, as boomtowns (cidades que cresciam às margens dos postos de trabalho da ferrovia), a Corrida do Ouro, e outros.


As motivações, dramas pessoais e destinos de vários de seus protagonistas (nem sempre apresentados de forma verossímil na ficção) também são esclarecidos. Entre eles, os generais Ulysses S. Grant e George A. Custer, os líderes indígenas Touro Sentado e Cavalo Louco, os bandidos Jesse James e Billy The Kid, e os homens da lei Wyatt Earp e Pat Garrett.

Com a ajuda de trechos de entrevistas com personalidades diversas - historiadores, autoridades políticas e atores do gênero (como Kiefer Sutherland, Burt Reynolds, Danny Glover e o próprio Redford), The American West ajuda a desfazer certos mitos sobre a alma americana - se não sobre sua inegável coragem de lançar-se ao desconhecido numa região cheia de perigos, à qual não faltam elogios, certamente sobre a pureza de suas intenções e a honradez de suas ações.

O espectador tem a chance de entender, por exemplo, como nasceu a avareza imperialista americana. O homem branco americano, quando quer algo, simplesmente remove à força o que estiver em seu caminho, dizimando quase completamente uma etnia (os indígenas, sistematicamente enganados pelo governo) e uma espécie animal (os bisões, caçados aos milhões), ou matando-se entre si às dezenas, tudo em troca de riqueza material. Além disso, The American West aponta a culpa do governo em negociatas que, entre outras coisas, prolongaram os conflitos nos estados confederados e dificultaram a vida dos negros após a abolição da escravatura.


Mas a série não é (apenas) uma aula de história. As perseguições, tiroteios e batalhas campais são todas empolgantes, e o elenco se entrega com gosto aos seus personagens. Não há alívio quanto à dualidade de caráter de alguns, quer tenham sido vis, estúpidos ou ingênuos. Do figurino aos cenários, o nível da série é sempre muito alto, garantindo horas de lazer bem bonitas de assistir - e confesso que tive diversas surpresas encantadoras sobre alguns personagens, suas ações e seus legados.

The American West pode ser encontrada na Netflix brasileira, ainda com seu antigo nome, The West. Uma excelente opção para passar tempo na quarentena.