5.1.21

Demolidor: O Diabo da Guarda


Houve um tempo, lá pelo meio dos anos 90, em que Kevin Smith circulava por Hollywood como a personificação das boas ideias. Um cara muito cool, pelo mérito de ser absolutamente "gente como a gente", um nerd que havia "chegado lá". Como bom nerd, Smith era fã de quadrinhos. Ele já tinha até escrito os seus próprios, independentes, com histórias dos personagens de seus filmes O Balconista (1994) e Procura-se Amy (1997) - foi neles que surgiram os famosos Jay e Silent Bob, prestes a ganhar um novo filme.

Em 1998, com seu prestígio crescente, Smith foi convidado a escrever o Demolidor na Marvel Knights, nascente divisão adulta da Marvel Comics. Com ele, o amigo pessoal e chefe da iniciativa, Joe Quesada (que, em poucos anos e por muitos anos, se tornaria a pessoa mais poderosa da editora). Smith escreveria e Quesada desenharia (com arte-final de Jimmy Palmiotti).

Eu não era um leitor do Demolidor no ano 2000, quando O Diabo da Guarda saiu na Marvel 2000 (Abril), então, não tenho memória do impacto que ela causou, mas, na introdução deste encadernado em capa dura da Panini Comics, Joe Quesada se derrete em elogios: "Kevin Smith mudou tudo". Lembro que folheei uma versão anterior, em capa cartão, e por pouco não a comprei. Agora, fã declarado do personagem, aproveitei uma promoção e trouxe o Diabo pra dentro de casa (lá ele!).


Entre meus colegas, a história goza do status de obra superestimada, um "clássico" forçado goela abaixo. Não é, de forma alguma, um gibi ruim, mas, de fato, empalidece quando comparado ao que foi feito por gente como Brian Bendis ou Ed Brubaker, anos depois (ainda me falta conhecer melhor o trabalho de Frank Miller e Ann Nocenti com o personagem).

Na trama de O Diabo da Guarda, Matthew Murdock é visitado por uma garota que alega ter engravidado sem contato sexual (e ele saberia, por seus sinais vitais, se ela estivesse mentindo). Além disso, a garota diz que o bebê em seus braços é o Salvador da humanidade, e que anjos a haviam visitado para contar que ele é, em segredo, o Demolidor. Depois, o herói recebe a visita de um misterioso senhor, que alega justamente o contrário: o bebê seria o Anticristo e deveria ser entregue para sacrifício. Em meio a tudo isso, o grande amor de Matt, a radialista Karen Page (que o abandonou, viciou-se em drogas e fez até filmes pornô) retorna, dizendo-se arrependida e "limpa".

Com a cabeça a mil pela volta de Karen (que chega com uma notícia-bomba sobre sua saúde) e pela indecisão quanto ao que fazer com a bebê (sim, uma menina), Matt começa a entrar em parafuso, questionando sua fé, duvidando de seus amigos e cogitando dar cabo da criança. A certa altura, ele fala tanta merda, que me lembra o típico "cidadão de bem" brasileiro. Por sorte, o Demolidor tem um circulo de amigos extremamente tolerantes com sua capacidade de atrair desgraças e, aos poucos, a verdade começa a aparecer.

O desenlace final me incomoda, porque me parece trabalho demais para alguém que o Demolidor mal viu na vida, e ainda mais com aquele intuito de "causar" pra impressionar a um terceiro. O "como", porém, foi bem mais convincente que o "quem" ou o "por quê".


Sendo esta a primeira vez que li O Diabo da Guarda inteira, achei que foi digna do meu tempo. A escrita de Kevin Smith alterna momentos de alta contundência e esperteza com outros de dramalhão vergonhoso, mas, apesar da massa de texto, o saldo é positivo. A arte de Joe Quesada é um massavéio noventista com classe, mas ele dá aos personagens umas expressões abobalhadas que me incomodavam, às vezes. Não se pode negar, porém, que aquelas capas - com a corda entre os bastões do herói dando voltas impossíveis - ganharam lugar fixo no imaginário visual do personagem, e o quebra com o Mercenário tem uns exageros divertidos.

No fim das contas, se não é mesmo uma obra-prima, Demolidor: O Diabo da Guarda se garante como um passatempo honesto. Se achar por bom preço, não vacile.

* * * * *

DEMOLIDOR: O DIABO DA GUARDA
Kevin Smith (roteiro), Joe Quesada (arte)
Marvel/Panini - 232 páginas - R$ 69 (preço sugerido)

27.12.20

Mulher-Maravilha 1984


Mulher-Maravilha (2017) foi um dos filmes mais importantes da década que se encerra. Nesse tempo, em que tanto se discutiu os papéis de diversas minorias na sociedade, o filme deu protagonismo a uma mulher forte, independente e graciosa, apresentando a maior heroína de toda uma geração de meninas e (por que não?) meninos, que, um dia, vão falar dele como as gerações anteriores falam do Superman de 1978. Fez menos dinheiro do que Batman vs Superman (2016) e Aquaman (2018), mas, para muita gente, é o "campeão moral" dentre os filmes mais recentes da DC.

Garantidos os retornos de Patty Jenkins à direção e de Gal Gadot ao papel que a tornou uma estrela, era muito natural que as expectativas para uma continuação estivessem altas. Depois do ótimo primeiro trailer, então, ao som de "Blue Monday", do New Order, era cada vez maior a crença de que tínhamos uma bonita e divertida aventura a caminho. 

Aí, veio a pandemia, os cinemas fecharam e a estreia de Mulher-Maravilha 1984 foi sucessivamente adiada, até finalmente baterem o martelo pela estreia simultânea nos cinemas americanos e no HBO Max no dia de Natal - no Brasil, a estreia nos poucos cinemas abertos seria no dia 17 de dezembro.

Para nossa alegria, o grande dia chegou e MM84 finalmente estreou... mas, infelizmente, não correspondeu à ansiedade gerada.

O novo filme resolve alguns problemas encontrados no primeiro: os vilões são melhores, o CGI é melhor (mesmo ainda capengando em alguns momentos) e existe um tom otimista e solar de que, francamente, precisávamos muito este ano. O roteiro, porém, é digno de uma Sessão da Tarde oitentista - e não de um jeito legal.

Como em 2017, o filme começa com um belo flashback de Themyscira, a Ilha Paraíso, durante a infância de Diana. As belas locações nas Ilhas Canárias e as proezas das amazonas são de encher os olhos, e a pequena princesa recebe uma dolorosa lição sobre a verdade.

Corta para 1984. Os amigos de Diana no primeiro filme, passado em 1918, naturalmente, estão todos mortos, inclusive Steve Trevor (Chris Pine), seu primeiro amor. Trabalhando sob a identidade civil de Diana Prince, arquéologa do Museu Smithsonian, em Washington, a Mulher-Maravilha só age publicamente sem que haja câmeras por perto e suas aparições são tratadas como "avistamentos". Num shopping center, ela evita o roubo de uma série de artefatos, entre os quais está uma "pedra dos desejos", inicialmente desprezada pelo seu baixo valor material, mas que se prova efetiva.

A chegada da pedra ao Smithsonian atrai a atenção de Maxwell Lord (Pedro Pascal), empresário vigarista com pose de guru de autoajuda. Ele conta com a ingenuidade da desajeitada Dra. Barbara Minerva (Kristen Wiig), gemóloga e zoóloga do museu, para se apossar do artefato. Os desejos realizados pela pedra, porém, sempre têm um alto custo, e suas implicações, antes pessoais, começam a ganhar alcance global.


Como dito antes, os vilões são boas coisas de MM84. Kristen Wiig encontra um tom inseguro e ressentido, perfeito para a Dra. Minerva, e leva tempo até que possamos vê-la como Mulher-Leopardo. Na internet, há quem compare o CGI da personagem transformada ao fiasco que se vê em Cats (2019). Justiça seja feita, o trabalho é até inferior tecnicamente, mas consegue transmitir a força e ferocidade que a tornam uma ameaça enorme (infelizmente, pouco aproveitada). Já Pedro Pascal está perfeito como o pilantra Maxwell Lord, apesar das liberdades tomadas com o personagem, em relação à sua contraparte dos quadrinhos. Suas expressões faciais e seu "papo de vendedor" são boas razões para o momento de grande prestígio vivido pelo ator (que também é o protagonista da série The Mandalorian).

Mesmo Gal Gadot parece ter estudado um pouco mais de sua arte. Continua uma atriz limitada, mas não passa vexame nos momentos mais dramáticos e mostra-se muito apta para cenas de ação. A boa química com Chris Pine se repete aqui, e a presença de Steve Trevor no presente, um dos mistérios levantados pelo trailer, faz sentido dentro da trama.

Infelizmente, todo o bom trabalho dos atores não é suficiente para disfarçar o fiapo que é o roteiro, e a direção de Jenkins, paradoxalmente, "pesa a mão na leveza", com ocorrências caóticas se empilhando, mas sem conseguir que a gente se envolva pra valer com o que está acontecendo. O final é meloso em nível ultrajante, de levar um diabético ao coma, mas a má impressão é suavizada pela simpática e reverente cena pós-créditos, com uma aparição muito esperada pelos fãs.

Artefatos mágicos, cientista boazinha que fica ruinzona, vilão que quer dominar o mundo e gargalha insanamente, heroína que sacrifica a própria felicidade pelo bem do mundo... Como se vê, elementos clássicos de uma Sessão da Tarde, o que coloca o filme em pé de igualdade com obras menores da Marvel, como Homem-Formiga (2015) ou Doutor Estranho (2017), filmes aos quais você assiste enumerando os problemas e esquece cinco minutos depois que sai do cinema ou desliga a TV. Normalmente, estaria tudo bem com isso, mas o padrão estabelecido com o primeiro filme nos fez esperar por muito mais do que MM84 tem a oferecer. Uma pena.

24.12.20

Bowie: Stardust, Rayguns & Moonage Daydream


É com certo pesar que admito que demorei a deixar David Bowie entrar em minha vida. Lá pela segunda metade dos anos 80, quando comecei a me interessar por rock and roll, ele estava vivendo o que muitos acham que foi a pior fase de sua carreira. "Underground", a música que gravou para o filme Labirinto (Jim Henson, 1986) tinha um clipe legal e só. Eu estava muito ligado no indie rock de The Smiths e The Cure, e "Day In, Day Out" ou "Never Let Me Down", singles de seu álbum de 1987, pareciam distantes demais da Londres soturna que então me encantava - e o pessoal da Bizz (extinta revista musical brasileira que, para o bem e para o mal, ajudou a formatar meu gosto musical) odiava o Never Let Me Down, então, por tabela, eu também odiava.

Em 1989, houve a famigerada "O Astronauta de Mármore", versão do Nenhum de Nós para a "Starman" de Bowie - mas, naqueles tempos sem internet, quando eu morava numa cidade do tamanho de um ovo, era nunca que eu ia ter chance de conhecer a original. Em 1990, sua turnê Changes veio ao Brasil, mas, pelos relatos de indiferença do público, eu não era o único ignorante sobre ele nestas terras. Anos depois, com o mercado mais aberto e a MTV Brasil funcionando a mil, pude conhecer a literal cover do Nirvana para sua "The Man Who Sold the World". Agora, sim, que musicão da porra! Acho que preciso conhecer mais desse David Bowie, hein!?

Com a chegada da internet banda larga (com seus "impressionantes" 128 kbps, quando baixar uma única música podia levar horas), os clássicos de Bowie foram, aos poucos, pingando em meus ouvidos. "Heroes", "Space Oddity", "Rebel Rebel", "Life on Mars", "Diamond Dogs"... e, sim, a bendita "Starman" original. Bowie virou alguém familiar, que teve seu talento, valor e influência reconhecidos por mim bem antes de sua morte, em 2016. Sorte minha.

Naquele 10 de janeiro de 2016, eu vi repetir-se uma comoção que só tinha visto quando da morte de John Lennon, em 1980, e de Michael Jackson, em 2009. O mundo se uniu em homenagem para deixar bem claro: perdeu-se um artista inigualável. Era uma hora sombria.

Bowie: Stardust, Rayguns & Moonage Daydreams foi lançado em janeiro de 2020 lá fora, pela Insight Comics, e apenas um mês depois no Brasil, pela Panini Comics. 164 páginas em formato grande e capa dura, a proibitivos R$ 90. Foram 10 meses de espera até uma promoção decente, mas meu exemplar custou meros R$ 27. Boas coisas chegam para aqueles que esperam, dizem (e é verdade).

Foi co-escrito por Steve Horton (procurei suas credenciais e parece que a internet não tem muito a dizer sobre ele) e pelo também desenhista Michael Allred, artista que fez fama com Madman, X-Force/X-Statix, iZombie e, mais recentemente, Surfista Prateado. Dono de um traço nostálgico e cheio de personalidade, Allred, como grande fã de Bowie, delegou-se a missão de retratar a carreira do astro, do começo modesto em 1967 até o fim de sua fase Ziggy Stardust, em 1973, quando parecia não haver como escapar ao fascínio que a revolução artística de Bowie provocava - uma influência que se expandiu para muito além da música.

Obviamente, existem limitações quando se quer contar a vida de alguém que teve cinco décadas de carreira, durante as quais jamais deixou deixou de chamar atenção. Embora seis anos pareçam um recorte pequeno demais em uma história tão rica, foi este o período mais revolucionário da vida e da obra de Bowie, entre o auge da psicodelia e o nascimento do glam rock

As capas icônicas, as canções inesquecíveis, as histórias por trás delas, os bastidores, acertos e mancadas, parceiros e concorrentes geniais... Está tudo aqui, em páginas visualmente soberbas (Allred capricha nas reproduções de fotos célebres e capas de discos) e cuja leitura não é exatamente rápida, mas é totalmente imersiva. É muita coisa acontecendo em pouco tempo, pois assim era a vida do homenageado.

Os anos seguintes são retratados, mas com pouco detalhamento histórico e em bem menos páginas, numa espécie de retrospectiva em fast-forward. Nada que diminua o prazer da leitura ou a importância do lançamento. O livro ainda conta com prefácio de Neil Gaiman (Sandman, Deuses Americanos) e colorização da esposa e constante parceira artística de Michael, sua esposa, Laura Allred.

Bowie: Stardust, Rayguns & Moonage Daydream tem irresistível apelo para quem já conhece (pouco ou muito) a história e a obra de David Bowie. Para o neófito, fica o nosso desejo de que o álbum provoque curiosidade sobre um artista que não deixou substitutos. A ausência de Bowie é um vazio que não se consegue preencher. É essencial ter noção do que se perdeu.

* * * * *

BOWIE: STARDUST, RAYGUNS & MOONAGE DAYDREAM
Michael Allred & Steve Horton (roteiro), Michael Allred (arte)
Insight/Panini - 164 páginas - R$ 90 (preço sugerido)

16.12.20

Tenet


Como na política brasileira, parece não haver meio termo possível quando se trata do cinema de Christopher Nolan. Chamá-lo, a cada lançamento, de gênio incontestável ou de charlatão pretensioso, também, como na política brasileira, impede a devida apreciação de sua obra: um cinema grandioso, que põe conceitos já complicados em uma embalagem mais complicada ainda e, simultânea e paradoxalmente, tenta tornar tudo isso digerível para o público.

Não se pode negar, porém, que por mais cerebrais que seus filmes sejam (ou tentem parecer), eles preservam o senso de espetáculo que nos leva ao cinema - ainda mais considerando que ele é, hoje em dia, um dos poucos grandes cineastas que abrem mão de grandes intervenções visuais digitais. Fã dos efeitos visuais práticos e de grandes cenários reais, Nolan captura como ninguém imagens grandiosas e impactantes. Seu cinema tem identidade e assinatura, tira o espectador da zona de conforto, e isso é mais do que se pode dizer de muita gente em atividade hoje em dia, quando apostar no seguro é a regra.

Tenet foi o primeiro grande filme a tentar furar o bloqueio provocado pela pandemia de coronavírus e pagou caro pela ousadia: com bilheteria total abaixo de 400 milhões de dólares, não cobriu o orçamento de 200 milhões, somado aos gastos de marketing, absurdamente aumentados a cada adiamento da estreia (nos EUA, em 6 de setembro). Até sua chegada ao streaming e blu-ray, Tenet tinha gerado prejuízo de cerca de 100 milhões de dólares à Warner.

John David Washington e Christopher Nolan: se juntos já causam...

Foi o suficiente para o estúdio, escaldado, tomar uma decisão controversa: lançar todos os seus grandes filmes de 2021 simultaneamente nos cinemas e no HBO Max, o que irritou profundamente a cineastas como James Gunn (O Esquadrão Suicida), Denis Villeneuve (Duna) e o próprio Christopher Nolan, o maior crítico da medida.

Tenet é um intrincado thriller de ação e ficção científica. Nele, um agente sem nome declarado, chamado apenas de O Protagonista (John David Washington) é salvo da morte e designado para desbaratar uma trama que parece envolver um perigo nuclear, visando à destruição do mundo como o conhecemos. Para isso, ele precisa aprender como coisas e pessoas se comportam quando submetidas à entropia reversa.

O conceito é real, mas ainda embrionário, sendo aplicável apenas em escala atômica e por tempo infinitesimal. No filme, a coisa já afeta objetos inteiros e pessoas por horas, dias, semanas. Ou seja, é científica, mas é ficção. Relaxe e lembre-se que está assistindo a um filme, não um tratado de física quântica.

Tecnicamente, o filme é assombroso, com objetos e pessoas em reversão entrópica interagindo com outras em estado normal, gerando cenas de luta estranhas e surpreendentes, além de trazer novas e interessantes perspectivas de elementos batidos do gênero, como duplicatas e aquela famosa recomendação de não interagir com elas. A cena do assalto na rodovia (na qual era imprescindível que o carro-forte assaltado não freasse ou parasse) dá ideia da dimensão da complexidade técnica alcançada aqui.

Trio Ternurinha: Patel, Pattinson e Washington

Para um filme tão longo (2h30), Tenet tem um ritmo bastante fluido. Dá para reclamar que tem mais surpresas do que somos capazes de processar de uma única vez, e que tantos planos dentro de planos não teriam como dar certo - felizmente, alguns dão errado, pra gente manter o pé no chão. O Protagonista coleciona umas vitórias de sorte inacreditável, mas, no processo, se arrebenta todo. Tudo bem, gostamos disso. Alguns diálogos, porém, parecem desnecessariamente empolados (resta saber se para os personagens parecerem mais inteligentes ou para a gente parecer mais burro).

Além da performance vigorosa de John David Washington (alô, Marvel, precisando de um novo Pantera Negra aí?), temos um bem-humorado Robert Pattinson como seu dúbio auxiliar, Neil, e um Kenneth Brannagh exagerado como vilão e marido cruel com a esposa (Elizabeth Debicki). Himesh Patel (Yesterday), Aaron Taylor-Johnson (Kick-Ass) e Michael Caine (A Origem) são alguns outros nomes do elenco.

Não fosse o impeditivo da pandemia, Tenet provavelmente teria feito boa carreira no cinema, com muita gente repetindo (ou "trepetindo") a sessão. Seja para entender melhor as nuances da trama, para rever as muitas sequências visualmente acachapantes, ou para "entrar" no filme já prestando atenção em coisas que são mostradas ou explicadas depois, valeria o tempo e o dinheiro investidos. Somente o tempo dirá se Christopher Nolan é um gênio ou um charlatão. Por enquanto, é apenas impossível não prestar atenção em tudo que ele faz.

12.12.20

Jukebox Encantada #2

 

SADE
LOVERS ROCK
(2000)

A pecha de "motel music" atribuída ao som de Sade não é de todo descabida: são grooves suaves e lânguidos, perfeitos para embalar os apaixonados, seja antes, durante ou depois do coito. Amor romântico é o tema de praticamente toda sua obra - e, que fique claro, isso não é nenhum demérito, visto que Sade e sua ótima banda homônima "vestem" as histórias em doçura e elegância com as quais certos artistas podem apenas sonhar.

Desde que ela (nascida na Nigéria, em 1959, e criada na Inglaterra) surgiu para o mundo da música, num já remoto 1984, cravou seu nome nas paradas de sucessos, nas mentes e nos corações, com standards românticos do calibre de "Smooth Operator", "Your Love Is King", "The Sweetest Taboo", "Stronger Than Pride" e "No Ordinary Love".

Depois de quatro álbuns de grande sucesso, porém, a vida pessoal de Sade Adu estava aos pedaços. Seu primeiro casamento chegou ao fim em 1995. Ela se mudou para o Caribe e teve alguns romances malsucedidos, atraindo a atenção da imprensa da pior maneira, com rumores sobre depressão e vício. Ela tinha estado ativa desde a primeira metade da década de 80 e era uma estrela absoluta na entrada dos 90, mas, depois de Love Deluxe (1992), avessa a entrevistas, fechou-se e entrou num hiato criativo que durou oito longos anos.

Lovers Rock foi lançado em 13 de novembro de 2000. Um mês antes, o primeiro single do disco, "By Your Side" (uma pungente declaração de amor/amizade incondicional, como ainda não havia surgido no século que começava*) já dava pistas de novidades: o som não era o jazz pop que a havia consagrado. Era um soft rock com pendores de reggae (e, sim, há quem chame isso de "lovers rock" como um estilo).

* Tecnicamente, o século XXI só começou em 01/01/2001, claro, mas existe toda uma mística em torno do ano 2000 que permite a licença poética.

Não foi a única diferença percebida: Lovers Rock não tinha saxofone (quase uma marca registrada do som de sua banda) e apontava para uma variedade musical e temática inéditas para Sade. Tendo passado por tudo que passou, a cantora mostrava-se amadurecida em suas reflexões amorosas. "King of Sorrow", segundo single do álbum, fala da simultânea dificuldade em aceitar e abrir mão de um amor desgastante: "É só o dia chegar que tudo volta à tona / Só mais um dia / E nada mais está bom". Outro destaque romântico do disco, "Somebody Already Broke My Heart" fala da dificuldade de permitir-se apaixonar novamente: "Alguém já partiu meu coração / Se alguém tem que perder, eu não quero jogar".


Baladas acústicas, soul music e dub reggae convivem harmonicamente ao longo de 11 faixas, em cujas letras despertam, além dos males do coração, preocupações sociais como a situação dos expatriados (em "Immigrant", com os versos "Vindo de onde veio, ele era rejeitado em todas as portas") e a conscientização sobre a História ("Slave Song", que diz "Eu rezo ao Todo-Poderoso que não me deixe fazer a outro o que foi feito a mim / Ensino aos meus amados filhos que foram escravizados a buscar a luz continuamente").

Não deixa de ser curioso que um álbum tão diverso demonstre uma coesão tão evidente. As faixas se intercalam sem susto e a experiência de ouvi-lo inteiro é das mais agradáveis. Para cada "pancada de amor", como "Every Word" ("Eu vi uma foto / Como você pode ter sido tão descuidado? / Como pode ter feito isso conosco?"), existe um momento sublime de resignação esperançosa como "All About Our Love" ("Querido, nós sabemos / Venha o que vier / Podemos passar por isso").

Perto do fim, a faixa-título, com seus tons de reggae (a passagem pelo Caribe rendeu o que importa: música), aponta lindamente para uma confiança reconquistada no amor ("Você é a Rocha dos Amantes /.../ Aquela a que me agarro em uma tempestade"). Após Lovers Rock, Sade entraria em "retiro" ainda mais demorado: seriam dez anos até Soldier of Love. Naquela virada de século, porém, sua música ajudou a fazer do "fim do mundo" que se antevia uma bonita celebração do amor, embalada pelo som do mar e do vento.

* * * * *

SADE - Lovers Rock (2000)
Lançamento: 13 de novembro de 2000
Produção: Sade e Mike Pela

01 - "By Your Side"
02 - "Flow"
03 - "King of Sorrow"
04 - "Somebody Already Broke My Heart"
05 - "All About Our Love"
06 - "Slave Song"
07 - "The Sweetest Gift"
08 - "Every Word"
09 - "Immigrant"
10 - "Lovers Rock"
11 - "It's Only Love That Gets You Through"

15.11.20

Morto Não Fala


Imagine que seu trabalho é conviver com a morte. É assim que Stênio passa suas noites: recebendo, abrindo e preparando cadáveres no IML de São Paulo. Pobre, casado e com dois filhos, Stênio leva uma vida nada invejável, mas, sem qualquer explicação, desenvolveu a capacidade de falar com os mortos. Enquanto os prepara para congelar ou embalsamar, Stênio ouve as cabeludas confissões dos defuntos e guarda para si aqueles assuntos (quem iria acreditar, afinal?), até o dia em que a história de um traficante de seu bairro o envolve diretamente.

Morto Não Fala é uma tremenda realização de Dennison Ramalho, roteirista da série Supermax e de alguns episódios de Carcereiros, da Globo. Co-escreveu, ainda, o roteiro de Encarnação do Demônio (2008), último filme de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Este é seu primeiro longa-metragem.


Com seu ato impensado, Stênio (Daniel de Oliveira, em ótima atuação) se vê "marcado", atraindo perigo fatal para si e para os seus. Os filhos o entendem e respeitam cada vez menos. Quando o casamento ruim com Odete (Fabíula Nascimento) deixa de ser um problema, a espiral descendente de Stênio, posta em andamento por ele próprio, ganha contornos sobrenaturais típicos produções do gênero. Apesar da estética suburbana, a direção segura de Ramalho entrega uma obra que rivaliza em qualidade com boas produções estrangeiras.

O roteiro, do próprio diretor, tem ótimas sacadas, tecendo surpreendentes reviravoltas para quebrar nossas expectativas, seja quando esperamos um jump scare à moda americana, seja quando achamos que a história não tem mais para onde ir. É claro que os jump scares estão lá (alguns, como a cena do forno, de gelar o sangue), ou isso não seria um terror sobrenatural.


O aspecto gore é bastante convincente, um triunfo do filme. Em vez de aplicar maquiagem aos atores "mortos", porém, Ramalho optou por refazer suas feições em CGI - por incrível que pareça, uma decisão em prol do realismo, já que muitos deles estão conversando enquanto Stênio revira suas entranhas - e o efeito, embora geralmente satisfatório, deixa a desejar em alguns momentos.

Com orçamento generoso (3,3 milhões) para uma produção brasileira de nicho, de um diretor "estreante" (aspas necessárias, pois Dennison Ramalho já havia dirigido alguns curtas, como Amor Só de Mãe), Morto Não Fala prova que o investimento cultural, tão dilapidado e criticado nos últimos anos, pode se justificar e compensar grandemente.

* * * * *

MORTO NÃO FALA (2019)
Com Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento, Bianca Comparato
Direção: Dennison Ramalho

8.11.20

Os Novos Mutantes


Talvez a produção mais zicada da história recente de Hollywood, Os Novos Mutantes sequer tem a desculpa da pandemia de coronavírus para culpar por seu insucesso: mesmo antes de os cinemas fecharem as portas, o filme foi pego no fogo cruzado da compra da Fox pela Disney e correu o risco de jamais ver a luz do dia. O primeiro trailer (de inacreditáveis TRÊS anos atrás!) fazia parecer que veríamos um filme de horror sobrenatural, em vez de uma aventura de super-heróis. Contrariava as expectativas, mas deixou os espectadores curiosos.

Por muito tempo, a Disney não sabia o que fazer com o filme - se insistia em lançar nos cinemas, lançava direto no Disney+, ou jogava tudo no lixo. Quando o martelo foi batido em favor da exibição em tela grande, chegou a pandemia e jogou água no chopp do Mickey. A fé da Disney no potencial de bilheteria do filme (fé que ela negou ao live action de Mulan, por exemplo, que foi direto pro streaming) dava pistas de que talvez ele fosse bem bom, afinal. O último da quase interminável sequência de adiamentos foi para 28 de agosto passado. Aí, Os Novos Mutantes chegou ao cinema e...

É um trabalho ingrato, o de chutar cachorro morto, mas a gente deveria ter desconfiado. Não me entenda mal, eu não sou alguém que está sempre com a régua de expectativas baixa por medo da decepção - e olha que faz pouco mais de um ano que eu assisti àquela atrocidade chamada X-Men: Fênix Negra. O benefício da dúvida é algo que eu distribuo sem muita exigência. O primeiro clip extraído do filme, aquele com os minutos iniciais, em que a aldeia de Danielle Moonstar é atacada pelo Urso Demônio, mantinha acesa minha esperança de uma diversão passável, no mínimo.

O filme, porém, foi massacrado pela crítica, e o público americano que se aventurou a vê-lo não bastou para cobrir o modesto orçamento, que oscilou entre 67 e 80 milhões de dólares. O baixo custo provavelmente explica a qualidade capenga dos efeitos especiais - em diversos momentos, a gente parece estar vendo um filme do começo dos anos 2000, daqueles fuleiros.


Os aspectos técnicos nem incomodariam tanto, se houvesse uma boa história sendo conduzida pelo diretor Josh Boone (que co-escreveu a história com Knate Lee, seja quem for essa pessoa). A trama é um amontoado de clichês, como a severa porém bem-intencionada doutora Cecília Reyes, que comanda sozinha um hospital que mais parece uma prisão, onde os cinco jovens mutantes Illyana Rasputin (nas HQs, Magia), Sam Guthrie (Míssil), Roberto da Costa (Mancha Solar), Rahne Sinclair (Lupina) e a já citada Danielle Moonstar (Miragem) vivem isolados do mundo exterior.

Não vou nem entrar no mérito de por que uma teleportadora interdimensional, como Magia (retratada como uma rebelde incorrigível), simplesmente não se manda dali e aceita que "é pro seu bem". Ou por que uma estrutura daquele tamanho tem apenas cinco pacientes e uma médica. Se for pra gastar tempo até pintarem umas cenas de ação decentes ou um drama que valha a pena acompanhar, a gente compra ideias ainda piores, numa boa.

Mas a coisa mais próxima de uma história humana genuína que a gente vê é o interesse de Rahne por Dani, mas mesmo isso é desenvolvido de maneira pobre. Os traumas dos demais ganham lampejos que deveriam ser aterrorizantes, mas só provocam bocejos, demérito da absoluta ruindade dos diálogos e da inabilidade do diretor.

Os atores fazem o que podem com seus personagens, mesmo tão desvirtuados e com tão pouco desenvolvimento. Dá para cravar Anya Taylor-Joy e Maisie Williams como destaques, mas todo mundo está OK e nada mais, e tudo que havia para ser dito sobre o white-washing envolvendo os brasileiros Alice BragaHenry Zaga já foi dito por gente mais entendida que eu. A identidade do chefe de Cecília Reyes é uma boa sacada, mas o roteiro não sabe o que fazer com isso, ou com os assassinos sem rosto que perseguem Magia, ou com qualquer outro suposto "mistério" que levanta.

"Mas, afinal, tem uma luta com o Urso?"

Tem, sim, mas é neste momento que a tosqueira atinge níveis abissais, com ação confusa e soluções dramáticas vergonhosas, lembrando X-Men: Fênix Negra, dirigido por Simon Kinberg, que (veja só!) produziu Os Novos Mutantes. Percebe um padrão sendo formado aqui?

Ainda bem que não paguei pra ver isso no cinema. Obrigado, coronavírus!

2.11.20

O Gambito da Rainha


Embora pareça uma daquelas histórias verídicas e edificantes sobre superação, O Gambito da Rainha revela-se uma surpresa muito acima da média - ainda mais considerando-se o padrão Netflix de obras fechadas, cujos finais costumam parecer apressados ou cansados.

Em seus sete magistrais episódios, a minissérie conta a história de Elizabeth Harmon (na fase adolescente e adulta, Anya Taylor-Joy, em grande atuação), que, após a morte da mãe em um acidente, é enviada a um orfanato cristão para garotas. Lá, além de ganhar a simpatia e a amizade da voluntariosa Jolene (Moses Ingram), ela conhece o Sr. Shaibel (Bill Camp), o recluso zelador do local, que passa os dias jogando xadrez sozinho no porão. Desde sempre afeita à matemática e à lógica, a garota consegue convencê-lo a ser seu professor de xadrez - e que aluna a pequena Beth vai se revelar...

Junto com as primeiras vitórias em pequenos torneios locais, vem a chance de adoção. O casal Allston (Patrick Kennedy) e Alma Wheatley (Marielle Heller) levam a garota para viver no centro de Lexington, Kentucky. Beth logo percebe, porém, que as coisas não vão muito bem no lar dos Wheatley. Quando se vê sozinha com a mãe deprimida e alcoólatra, Beth teme que a tragédia que vitimou sua mãe biológica se repita.


Entretanto, se há algo que se pode elogiar em O Gambito da Rainha, é sua constante disposição de contrariar nossas expectativas, sejam aquelas criadas pelas convenções vistas em filmes e séries do gênero, sejam aquelas advindas de nossas próprias convicções. O roteiro (dividido entre o diretor Scott Frank, o co-roteirista Allan Scott e o autor do romance homônimo de 1983 em que se baseia, Walter Tevis) privilegia escolhas pouco convencionais, o que casa perfeitamente com a imprevisibilidade de Beth Taylor, que vai de um orfanato no interior ao topo do mundo, em pouco menos de duas décadas.

Em sua vertiginosa jornada, Beth enfrenta campeões municipais e estaduais, até chegar, ainda muito jovem, à elite do xadrez. O sucesso no mais cerebral dos esportes lhe traz fama e fortuna, mas, previsivelmente, também, a autodestruição que desde sempre se avizinhava. Ainda jovem, Beth se vicia em tranquilizantes e, conforme cresce, vai experimentando outras viagens - porque ela acredita que joga melhor assim.

O ciclo de ascensão, queda e volta por cima de Beth é melhor percebido em suas más escolhas pessoais. Pela ajuda prestada pelos adversários/amigos/amantes Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster) e Harry Beltik (Harry Melling), por exemplo, ela paga com ingratidão e arrogância. Quando o álcool causa seu primeiro grande vexame e frustração, Beth abre a tampa do alçapão no fundo do poço. Mesmo sabendo que ela vai sair de lá, a gente não deixa de sentir certa apreensão. É uma personagem tão marcante e bem-desenvolvida que não tem como não torcer por ela.


A edição faz xadrez parecer a coisa mais emocionante que existe, e a tensão de algumas importantes partidas deixa a gente roendo as unhas! Apesar do tom abertamente feminista da série, ela não demoniza os homens ao redor de Beth (com uma exceção apenas), que parecem sempre igualmente muito dispostos a ensinar e aprender com ela. Quando chega o torneio em Moscou, por exemplo, parece mais um campeonato de boas maneiras do que um evento esportivo. Vale citar o esmero da produção na reconstituição de época, das roupas aos carros e cenários.

Se você chegou até aqui, devo pedir desculpas, porque saber qualquer coisa  sobre O Gambito da Rainha tira um pouco de sua graça. Não era possível para mim, porém, ignorar o impacto positivo dessa ótima série. Era preciso escrever sobre ela e recomendá-la. Seja pelas nuances dos personagens, as ótimas atuações ou as interessantes viradas do roteiro, não faltam méritos. Um triunfo imenso entre as produções próprias da Netflix.

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O GAMBITO DA RAINHA (The Queen's Gambit)
Netflix, 2020

27.10.20

Batman: Three Jokers


ATENÇÃO: TEXTO CHEIO DE SPOILERS!

Entre os leitores de quadrinhos de super-heróis, existem diversas regras não escritas. Uma delas prega que um bom personagem não precisa ser mudado para "ficar melhor". Quando o autor se atém ao básico, ele tem ali um manancial perene de boas histórias para contar, e qualquer passo fora dessa trilha segura há de gerar descontentamento.

Engraçado ver esse tipo de pensamento se perpetuar, porque nada poderia estar mais longe da verdade. A única coisa que é realmente intolerável é história ruim (e, sim, eu sei que "ruim" é um conceito totalmente subjetivo). Várias histórias clássicas pegavam nossos heróis favoritos e os distorciam de maneiras impensáveis, mas, quando isso é feito de uma maneira interessante e inteligente, a gente compra a "heresia" sem pensar duas vezes.

Não fosse isso verdade, não teríamos O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Não teríamos Os Supremos, de Mark Millar. Não teríamos a Liga da Justiça cômica, de J.M. DeMatteis e Keith Giffen. Posso garantir a vocês que não gostaria de viver em um mundo onde eu não pudesse ter lido essas coisas.

"Desnecessário" é contra-argumento recorrente. Ora essa, necessário pode até não ser. Talvez você seja jovem demais para lembrar, mas, acredite, houve um tempo em que a gente vivia razoavelmente bem sem internet e smartphones. Necessidades surgem espontaneamente, mas podem, também, ser "sugeridas". Então, até que alguém chegasse à mesa do corajoso editor da ocasião com a louca ideia de fazer um Batman velho, cujo Robin é uma menina, e que acaba por quebrar o pescoço do Coringa e fingir a própria morte, qualquer um acharia que isso seria uma loucura desnecessária.


Em 1988, também era loucura aleijar a Batgirl e dar flashes de uma possível origem para o Coringa. Mesmo assim (e mesmo com Alan Moore desprezando publicamente a história que escreveu), A Piada Mortal virou cânone, a Batgirl virou Oráculo (uma personagem muito mais útil e interessante, diga-se) e o Coringa virou o nome mais importante da ótima galeria de antagonistas do Batman.

Muito tempo depois, a DC foi, em partes mais ou menos iguais, ousada e idiota ao bolar o universo d'Os Novos 52, em 2011. A ideia era enxugar a cronologia e facilitar a vida de possíveis novos leitores. Sim, hoje sabemos que existem maneiras mais inteligentes de fazer isso, sem renegar o passado. Mas Os Novos 52 não são a pauta aqui.

Já estabelecido como um notório contador de boas histórias e consertador de cronologias bagunçadas, Geoff Johns ficou encarregado de escrever a Liga da Justiça, num "dream team" com o brasileiro Ivan Reis. Infelizmente, a Liga de Geoff Johns era muita forma e pouca substância. No final, ele teve a audácia da pilombeta de criar um problemão para si: essa história de que existem três Coringas.


Breve resumo para quem caiu de paraquedas aqui (ou ignorou meu aviso de spoiler): durante a Guerra de Darkseid, Batman controlou o poder de Metron, de Nova Gênese - que é, basicamente, o de saber qualquer coisa. Ao perguntar o verdadeiro nome do Coringa, a Poltrona Mobius respondeu com outra pergunta: "Qual dos três?"

Esse mistério ficou cozinhando por mais de cinco anos, ganhando menções aqui e ali. Cá com meus botões, eu acho que Johns não sabia muito bem o que fazer com aquilo tudo e preferiu esperar brotar uma ideia razoável, em vez de se queimar com uma solução meia-boca de curto prazo e curto efeito.

Não que Geoff Johns tenha falhado em se queimar. Afinal, nesse meio-tempo, ele se incumbiu de cometer outra "heresia", dando uma continuação para a obra-prima Watchmen que, supostamente, serviria para re-re-realinhar o Universo DC. Os absurdos atrasos e a qualidade oscilante de O Relógio do Juízo Final, porém, acabaram minando sua importância, juntamente com a paciência dos leitores. Somemos a isso as acusações de assédio sexual e profissional, e concluiremos que a maré de Johns não era das melhores.

Ainda é cedo para decidir se Three Jokers vai redimir Johns de seus pecados (os dos gibis, pelo menos), mas, olha, eu não posso deixar de dizer que o homem caprichou. Escrevo isto no dia 27/10/20, em que a terceira e última edição da minissérie foi lançada. Finda a leitura, fui tomado por sentimentos conflitantes, mas, conforme a poeira foi baixando, enxergo em Three Jokers uma das melhores história do Batman em tempos recentes e um fecho digno para um mistério pelo qual ninguém tinha pedido.

Os três Coringas que o Batman descobriu foram celebrizados em momentos distintos da carreira do herói: o Criminoso é pouco mais que um bandido comum, pragmático e cruel, como visto em Coringa (a graphic novel de Brian Azzarello); o Palhaço é o assassino de multidões, cujo prazer e diversão vem da tortura e morte em si - foi "esse" quem matou o segundo Robin, Jason Todd, por exemplo (em Morte em Família); por fim, o Comediante é um lunático sofisticado e eloquente, responsável pelo aleijamento de Barbara Gordon (na já citada A Piada Mortal, de Alan Moore).

Essa história de haver três Coringas chega a um ponto em que o Batman não pode mais ignorá-la quando três ataques simultâneos são creditados ao vilão. Nos cenários, vários mortos, todos "coringados" pelo gás do riso. Ainda que com relutância, Batman tem a ajuda dos seus dois parceiros mais afetados pela loucura do Coringa: a Batgirl e o Capuz Vermelho (nova identidade do morto e ressuscitado segundo Robin, que "homenageia" o Coringa).

O primeiro encanto de Three Jokers vem do fato de que este não é um Batman apoiado em tecnologia, como tem sido retratado em tempos recentes. É um detetive em uma busca obstinada, distribuindo pancada na corja covarde e supersticiosa e tendo que lidar com antigos ressentimentos no processo - com Barbara, com Jason e com o próprio vilão.

Acontecem umas coisas loucas, como um tubarão coringado (!!!), mas não é isso que a gente espera do Coringa?

O segundo é que o título e os boatos não mentem: existem três Coringas. Por que eles existem pode parecer inicialmente simples, uma questão de legado. E aí, você, leitor que se acha muito esperto, esquecendo que comprou a ideia de que o Coringa era um só em todos esses anos, apesar das claras diferenças em seu modus operandi, não pode admitir que o Batman seria enganado com um recrutamento que contemplasse a semelhança física e vocal?

As perseguições e pancadarias são eletrizantes. Jason Fabok pode não ser um superastro com traço personalizado (são claras as influências de Jim Lee, Ivan Reis e Gary Frank no seu traço), mas dá conta do recado, fazendo um gibi agradável de ler. A temperatura só cai quando Jason Todd e Barbara Gordon trocam um único beijo, depois que ela o salva de ter a cabeça arrebentada mais uma vez. Para Barbara, foi só um beijo, enfatiza ela repetidas vezes, coisa do calor do momento. Jason, porém, inventa uma atração e um sentimento que o tornam burro e irritante. O leitor se sente como ela, invadido e tendo seu tempo desperdiçado.

O terceiro encanto vem da solução do mistério, quando ficamos sabendo que o Batman, na verdade, sempre soube qual era a real identidade do vilão. Muita gente aponta contradição com a história da Liga da Justiça - afinal, por que o Batman faria uma pergunta cuja resposta conhece? O que eu acredito, porém, é que ele perguntou algo que só ele sabia, como se testando a Poltrona Mobius. O mistério era haver mais de um, mas lembre-se de quantas vezes você ouviu o Batman dizer que o Coringa estava "diferente": mais insano, mais cruel, mais focado. O maior detetive do mundo ainda é, enfim, apenas um homem. Mais esperto que a maioria, mas, ainda assim, um homem.


Previsivelmente, tudo acaba com o Coringa voltando a ser apenas um - e tudo bem. Até aqui, lemos uma boa história, com um mistério que, em mãos menos hábeis, redundaria em manobras questionáveis. Geoff Johns, porém, foi linear e coerente do começo ao fim, homenageando aos autores que o precederam na construção desta mitologia, sem invalidar qualquer coisa feita antes. Pelo contrário, as últimas páginas reforçam a validade das antigas "heresias" (incluindo um desfecho para o problema Joe Chill, o assassino dos Wayne que ninguém queria conhecer).

Há uma passagem primorosa, em que o verdadeiro Coringa, já reduzido a único, explica ao Batman seu plano. "Eu sou o caos. Eu sou o diabo. Eu curei a única dor maior que qualquer outra que eu pudesse causar a você. Agora, eu sou sua maior dor." Palavras que vão ecoar pelo imaginário do leitor por muito tempo. Não há necessidade de cravar agora se Three Jokers é uma obra-prima no universo do Batman, mas você lembra do que eu disse antes sobre necessidades, né? Quando chegar ao Brasil, vai ficar bonita na estante.

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BATMAN: THREE JOKERS
Geoff Johns (roteiro), Jason Fabok (arte)
DC Black Label

26.10.20

Dunkirk


Admito que foi por pura estupidez que não assisti a Dunkirk antes. Sou fã do cinema de Christopher Nolan e, normalmente, gosto de filmes de guerra, mas, sei lá por quê, passei três anos armado de expectativas negativas sobre este. Botei na cabeça que devia ser um filme bonito, porém, longo e chato.

De fato, Dunkirk é um filme muito bonito. Conforme esperado, Nolan continua um mestre no uso de câmeras IMAX, capturando planos de cair o queixo, com composições visuais caprichadíssimas. As batalhas aéreas e navais são um primor de realismo e a trilha sonora de Hans Zimmer eleva a tensão a níveis quase insuportáveis. Entre os atores, dois favoritos de Nolan, Tom Hardy e Cillian Murphy, além de Kenneth Brannagh, Mark Rylance e um surpreendente Harry Styles.

Não é, porém, um filme longo demais, com razoáveis 106 minutos de projeção, nos quais somos totalmente envolvidos pela maestria técnica e pela tensão do episódio real, ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando cerca de 400 mil soldados, entre ingleses e franceses, acuados pelos alemães, aguardavam resgate na costa francesa do Canal da Mancha. O governo inglês esperava ser capaz de resgatar cerca de 30 mil soldados, mas um pedido de ajuda a embarcações civis possibilitou o salvamento de mais de 300 mil.


Os diálogos econômicos ajudaram a prevenir uma falha sempre atribuída aos roteiros de Christopher Nolan: o excesso de didatismo - até porque não havia muito o que explicar. Eram milhares de pessoas acuadas e desesperadas, e nossa empatia não vem de histórias pessoais ou flashbacks narrativos. Está tudo ali, na nossa frente, e tudo que nos interessa (e nos põe nos cascos de aflição) é saber se eles (e quantos deles) vão conseguir sobreviver à situação.

Sim, existe o soldado traumatizado que provoca uma pequena tragédia num barco civil, o soldado caladão que gera suspeita em seu grupo, e o aviador que vê sua esquadrilha ser abatida, mas nenhuma subtrama toma muito espaço do esforço de salvamento. A sobrevivência é o mote.

Em vez de chato, como eu temia, Dunkirk revelou-se um dos melhores filmes de seu cineasta, tendo conquistado oito indicações ao Oscar (incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor) em 2018, levando três prêmios técnicos. Pego-me, agora, lamentando não ter vivido a experiência de assisti-lo no cinema, com tela grande e som envolvente. Dunkirk é um triunfo da vida e da arte.