30.3.19

Liga da Justiça 1


Da mesma forma que aconteceu no cinema, o sobrenome Snyder passou a suscitar mais desconfiança que esperança nos quadrinhos. Embora não sejam parentes, não é descabido comparar o cineasta Zack e o roteirista Scott.

Na tela grande, Zack Snyder rapidamente passou de promessa com Madrugada dos Mortos (2004) e 300 (2006) para o "visionário" (adjetivo que o persegue e ele parece abraçar com fé) diretor do bom Watchmen (2009) que, em seguida, jamais conseguiu repetir os feitos do início de carreira, dirigindo e/ou produzindo as bombas que deixaram a DC comendo a poeira da Marvel no cinema.

Nos quadrinhos, Scott Snyder entregou um arco memorável para o Batman em Detective Comics ("O Espelho Negro", 2011) que o catapultou para o título principal do personagem com status de estrela. Sua passagem por Batman começou bem, com A Corte das Corujas, a prolixa Ano Zero e outros eventos mais ou menos bombásticos, mas terminou de maneira questionável com o Bat-Coelho mecânico. Ele ainda pôs a mão em Batman Eterno e Grandes Astros: Batman, sem jamais repetir a coesão de seus primeiros trabalhos.

Da mesma forma que os estúdios Warner burramente insistiram na visão de Zack Snyder para o Universo DC (cujos único fruto verdadeiramente bom foi o filme da Mulher-Maravilha (2017), dirigido por Patty Jenkins, mas com a pesada mão de Zack visível em cada fotograma), a DC Comics insistiu em Scott Snyder, entregando-lhe o comando de "grandes eventos" que se revelaram imensos tiros n'água, como Noites de Trevas: Metal (2017) e Sem Justiça (2018).

Esta nova série da Liga da Justiça deriva diretamente dos eventos destas duas últimas empreitadas de Scott Snyder. Em algum ponto de sua carreira, o escritor parece ter perdido a habilidade de escrever histórias simples - e, ainda que simplicidade não seja algo que se espere de uma agremiação de semideuses, tampouco dá para se empolgar com uma nova ameaça cósmica capaz de acabar com a realidade a cada 15 dias. O problema, em si, não é a escala: é que Snyder simplesmente não consegue criar no leitor empatia por sua Liga.

Sejamos justos, a primeira história é bem divertida, com os heróis demonstrando intimidade no campo de batalha, sacaneando os maneirismos do Batman e expressando respeito e afeição pelo Caçador de Marte (ponto para Snyder: a LJA não é a mesma coisa sem o eterno "Ajax"). A nova Sala de Justiça (olá, Superamigos!) e a formação que remete ao excelente desenho animado da equipe (aquele produzido por Bruce Timm) são achados. E tem essa capa linda, um verdadeiro ímã emocional pro fã que vinha desestimulado pelas sucessivas fases mornas ou francamente ruins do gibi. Os artistas Jim Cheung e Jorge Jimenez dão conta do recado.

O encanto, porém, não demora a se desfazer, com a megalomania de Snyder empurrando as coisas com a barriga, em uma escala gigantesca e confusa. Quando um pedaço da essência da Muralha da Fonte (quebrada durante os eventos de Noites de Trevas: Metal) começa a rumar para a Terra de modo irrefreável, a Liga da Justiça resolve intervir, ocultando o artefato por meio de magia para evitar pânico mundial e descobrir o que ele esconde. Paralelamente, Lex Luthor reúne uma Legião do Mal (olá de novo, Superamigos!) para apoderar-se da essência da Muralha, apelidada de Totalidade.

Para entender como uma Liga da Justiça pode ser simultaneamente interessante em seus aspectos macro e micro, recomendo a leitura das fases escritas por Grant Morrison e Joe Kelly no título original JLA (uma vez que a Panini, inexplicavelmente, sonega a republicação dessas fases).

Confesso que só mesmo o fato de que sou "putinha" da equipe justifica este investimento - e, resignado, admito: vou seguir comprando. A propósito, o novo acabamento gráfico desta e de outras mensais, tanto da DC quanto da Marvel, entrando em nova fase, é de cair o queixo: capa cartão e papel couché, tudo muito gostoso ao toque. Custa mais caro? É claro que custa: dos costumeiros R$ 7,50 por um gibi padrão de 52 páginas, saltamos para R$ 9,90.

Fica lindo pra colecionar, mas, sejamos francos, dona Panini, ninguém pediu por este autêntico "presente de grego". A quem, além da senhora, realmente interessa essa gourmetização de um lazer que é, essencialmente, descartável? Quando tudo passa a ser "especial", na verdade, ao mesmo tempo, tudo deixa de ser. Torço para que não estejamos diante de uma "bolha" que leve à implosão do mercado - mas que parece que estamos diante de uma, parece.


* * * * *

LIGA DA JUSTIÇA 1
Scott Snyder (roteiro), Jim Cheung e Jorge Jimenez (arte)
DC/Panini - 52 páginas - R$ 9,90

8.3.19

Retrovisor #2

O que você tomou pra curar sua ressaca do Carnaval de 2009? Fez disquete de backup pra evitar o bug do milênio no final de 1999? Você, pelo menos, já havia nascido em 1989? Hora de dar aquela olhada marota em direção ao passado recente e nem tão recente assim.


HÁ 10 ANOS...

Crise Final


Em 2009, começou a sair no Brasil a minissérie Crise Final, de Grant Morrison. Não fazia muito tempo que outras Crises (a Infinita e a de Identidade) haviam se abatido sobre o Universo DC, e Morrison chegou cheio de ideias mirabolantes. A DC puxou o freio de mão no meio da brincadeira e deu dois tapinhas na mão do autor. Pouca gente entendeu o que Morrison pretendia quando bolou uma história com a vitória definitiva do mal, na qual a temida Equação Antivida foi solta sobre a Terra e o Batman acabou morrendo ao enfrentar Darkseid (ao mesmo tempo em que morria na própria revista mensal, também escrita por ele). Havia uma montanha de séries paralelas, mas elas mais atrapalhavam do que ajudavam. Teve seus momentos (Darkseid renascendo no corpo de Bibbo Bibbowski era assustador), mas, no fim das contas, serviu pra pouca coisa.


HÁ 20 ANOS...

Travis - The Man Who


Parece inacreditável que o Travis foi, um dia, a banda que apadrinhou a chegada do Coldplay e, depois, ficou comendo a poeira dos afilhados cada vez mais famosos. The Man Who era o segundo disco da banda escocesa, um dos grandes discos românticos do final do século e, musicalmente, indie rock de excelente qualidade. À época, o vocalista e letrista Fran Healy foi chamado de "o último heterossexual sensível do rock". Verdade ou exagero, o fato é que o disco está coalhado de canções altamente assobiáveis, com ótimas letras sobre o fim do amor. Ainda que melancólica, a música do Travis aqui é dessas que dão vontade de cantar junto, como em "Turn" (elogiada até por Paul McCartney) e "Why Does It Always Rain on Me?" A pontada no coração que faz os olhos marejarem está garantida na última faixa, "Slide Show", com seu clima de "é, agora acabou pra valer..." Depois de The Man Who, o Travis ainda fez alguma graça com The Invisible Band (2001), mas, depois, foi minguando até a irrelevância.


HÁ 30 ANOS...

Nascido em 4 de Julho



Até 1989, Tom Cruise ainda era visto por boa parte do público como um ator bonito e nada mais. Havia elogios às suas atuações em A Cor do Dinheiro (ao lado do ícone Paul Newman) e Rain Man (ao lado do então ainda ícone Dustin Hoffman), mas Tom só começou a ser levado a sério com sua indicação ao Oscar por Nascido em 4 de Julho, na cerimônia de 1990. Com a habitual falta de sutileza, o diretor Oliver Stone questionava o papel dos EUA na Guerra do Vietnam e o tratamento dedicado aos seus veteranos - este último, um assunto que se prolonga por décadas, em diferentes guerras. Embora tenha vencido o Globo de Ouro daquele ano, Cruise teve a infelicidade de chegar ao Oscar competindo com Robin Williams, Morgan Freeman, Kenneth Brannagh e o incontestável vencedor, Daniel Day-Lewis. Apesar da derrota (e de um punhado de escolhas pessoais e profissionais questionáveis), nos anos seguintes, Tom Cruise virou um dos reis de Hollywood e teve outras duas indicações ao Oscar (por Jerry Maguire, em 1997, e por Magnolia, em 2000).

5.3.19

Trillium


Jeff Lemire é um roteirista que, se não é uma unanimidade, sempre suscita, no mínimo, alguma curiosidade a cada novo trabalho. Ainda que seus esforços possam dividir opiniões, ninguém há de negar que ele é prolífico e tem boas ideias - vide Black Hammer, o gibi de super-heróis mais contemplativo da atualidade, mas cuja leitura é um desafio à vontade de fazer qualquer outra coisa.

Trillium é uma minissérie de ficção científica em 8 partes, escrita por Lemire para a Vertigo. Lançada entre outubro de 2013 e junho de 2014, nos EUA, a história mistura conceitos de distopia espacial e viagem no tempo, com ilustrações do próprio autor - arte esta que divide opiniões ainda mais do que sua escrita.

No ano 3797, a humanidade está reduzida a uns poucos milhares de pessoas, em colônias espaço afora, fugindo de um vírus letal chamado A Coifa. A esperança de sobrevivência reside na criação de uma vacina a partir de uma flor chamada Trillium. A Dra. Nika Temsmith é uma xenobotânica encarregada de estabelecer contato com uma civilização, em cujos limites murados se encontra Trillium suficiente para salvar nossa espécie. As dificuldades de comunicação, porém, parecem contribuir para um inevitável fim da humanidade.

Paralelamente, na Terra, em 1921, William Pike, um ex-soldado britânico traumatizado pelos horrores da Primeira Guerra Mundial, aceita participar de uma expedição da coroa inglesa às selvas peruanas. Seu objetivo é encontrar um "templo perdido dos incas", no qual espera haver tesouros e segredos capazes de mudar o rumo da ciência - e, quem sabe, dar um novo sentido à sua vida. As coisas dão muito errado para o grupo de exploração e William se vê sozinho na selva, acuado e perplexo diante de fenômenos para os quais não consegue ver explicação.

Por mais improvável que pareça, esses dois personagens acabam tendo seus destinos entrelaçados. Nika e William acabam descobrindo que sua contínua aproximação pode comprometer toda a realidade à sua volta - e que nem mesmo isso pode impedi-los de ficarem juntos.


Trata-se de uma bonita ficção científica, com elementos de love story, existencialismo, antimilitarismo e anomalias espaço-temporais. O traço de Lemire (colorização de José Villarrubia) pode ser discutível - talvez lembrando aquele seu amigo ou parente que é mais esforçado do que competente - mas carrega em si uma delicadeza meio esquisita, decadente, que serve muito bem à história. Estamos falando, afinal, de um período de guerra e do virtual fim dos tempos.


Indicada ao Eisner em 2014, Trillium consagra-se como um dos melhores títulos da Vertigo pós-Karen Berger e um dos melhores lançamentos da Panini em 2018 - não apenas pela qualidade da obra em si, quanto pelo formato escolhido: um encadernado em capa cartão, com 200 páginas a bom preço (R$ 29,90), num tempo em que nossas compras na banca ficam cada vez mais leves na sacola e pesadas no bolso.

* * * * *

TRILLIUM
Jeff Lemire
Vertigo/Panini

22.1.19

Green Book - O Guia


O road movie, como jornada de transformação, é um tipo de filme caro a Hollywood e ao público. Dificilmente seria o tipo de filme que esperaríamos vindo de Peter Farrelly (co-diretor de algumas das comédias mais grosseiras que já se viu, como Quem Vai Ficar com Mary? e Eu, Eu Mesmo e Irene). Menos fácil ainda seria prever que este filme fosse comedido, sensível e acabasse indicado a cinco Oscars, entre os quais, o de Melhor Filme.

A direção segura de Farrelly não foi reconhecida com uma indicação. Seria humanamente impossível, porém, não indicar seus dois ótimos protagonistas: Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Se tivesse que apostar, diria que Ali tem mais chances, já que, aparentemente, ninguém tira o Oscar de Ator Principal de Christian Bale, por seu papel em Vice.

Green Book - O Guia é um filme de temática racial baseado em uma história real, como Infiltrado no Klan. Em lugar da ironia e enfrentamento, porém, toma o caminho do humor e da emoção para retratar a amizade entre um pianista negro (Ali) e seu motorista branco (Mortensen).


Estamos na década de 60. Desempregado, o leão-de-chácara Tony Lip é convidado pelo pianista de jazz Doctor Don Shirley para servir como seu motorista e eventual guarda-costas, durante uma turnê por áreas onde a segregação racial era a regra. Ele próprio cheio de preconceitos, Tony inicialmente declina da oferta, mas sua situação financeira não é nada boa, e ele prefere afastar-se da vida de pequenos delitos que comete com outros amigos ítalo-americanos. Aceitando a proposta do artista, ele o conduz pelos estados do centro-sul americano, numa jornada que inclui dormir em pardieiros e encarar a violência racial, mas, também, permite àqueles homens que, inicialmente, se estranham tanto, conhecer e respeitar um ao outro.

Há uma agradável subversão de clichês no filme de Farrelly: o personagem inteligente, formal e travado é o negro, enquanto o descolado, desbocado e street wise é o branco. Gordo e comilão, Viggo Mortensen é impagável como Tony Lip, mas Mahershala Ali toma o filme pra si a cada aparição. Não apenas pela imponência e elegância, mas pela maior profundidade psicológica de seu personagem. O filme se equilibra muito bem entre o aprendizado de Lip sobre pessoas que intimamente despreza e o de Shirley sobre aquele homem sem qualquer refinamento, mas, principalmente, sobre si mesmo. É por isso que seu concerto final é tão simbolicamente poderoso.

Ainda que saia de mãos abanando no próximo dia 24 de fevereiro, Green Book - O Guia tem minha torcida para ganhar, com justiça, qualquer um dos Oscars a que está indicado. É um filme que muda não apenas aos personagens na tela, mas, também, às pessoas do lado de cá, oferecendo um choque de realidade pontuado por esperança e alegria.

Infiltrado na Klan


Apenas depois de assistir Infiltrado na Klan foi que me toquei da prolongada ausência de Spike Lee em minhas sessões de cinema. A última vez havia sido em 2006, com O Plano Perfeito - um suspense policial vigoroso, inteligente, mas convencional. Nada que provocasse nossas convicções pessoais daquela maneira contundente com que Faça a Coisa Certa deixou meio mundo desnorteado, há 30 anos.

A bem da verdade, eu não me lembro bem de como me senti no polêmico final do filme mais incendiário de 1989. Provavelmente, não devo ter gostado. Digamos que consciência social e empatia por grupos oprimidos não eram um ponto forte de minha personalidade, à época. É quase certo que eu pensei algo do tipo "pra quê isso?", mas, juro, não me lembro.

Já faz alguns dias que assisti a Infiltrado na Klan, e, hoje, 22 de janeiro, ele foi indicado a seis Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Nomeações totalmente merecidas, uma vez que trata-se de um dos melhores filmes que vi em tempos recentes, uma experiência de cinema arrebatadora.

Em mãos menos hábeis, o tema (um curioso e verídico caso de conflito racial) poderia tornar-se uma peça maniqueísta ou sentimental. Desde os créditos de abertura ("essa parada foi baseada em uma merda que aconteceu de verdade, pra valer!", em vez do habitual "baseado em uma história real"), porém, Lee optou por tratar com merecido desprezo cômico a parcela da sociedade que, nos Estados Unidos dos anos 70, ainda tentava deter o avanço das liberdades civis.


Na pequena Colorado Springs, Ron Stallworth (John David Washington) é nomeado primeiro policial negro da comunidade, numa região dominada por forte sentimento racista. Inteligente e proativo, Ron logo é promovido ao serviço de inteligência, onde se autodesigna a missão de desbaratar por dentro a célula local da Ku Klux Klan. Num lance ousado, ele telefona e se declara simpático à organização, embora os queimadores de cruzes nem imaginem que estão falando com um negro. Por razões óbvias, ele não pode realmente entrar para a KKK. Em seu lugar, envia o agente branco Phillip "Flip" Zimmerman (Adam Driver, indicado a Melhor Ator Coadjuvante). Com lábia, sangue-frio e uma generosa dose de sorte, Ron e Flip abrem portas cada vez mais secretas para o coração sombrio da América.

Apesar de não abrir mão da habitual contundência ao tratar das questões raciais (sendo especialmente tocante a cena em que Ron tem que fingir-se de insensível ao discurso do líder Kwame Ture), Lee esmera-se em expor o ridículo e as limitações cognitivas dos brancos caipiras reacionários. Mesmo quando se revelam especialmente perigosos, eles continuam sendo burros e azarados. Não deixa de ser tristemente notável que as barbaridades que proferem, com absurda naturalidade, continuem sendo reproduzidas até hoje.

É nos paralelos com a realidade atual, sejam sutis (com vários diálogos que apontam o dedo para a administração de Donald Trump) ou diretos (com imagens reais dos tumultos de 2017), que Spike Lee pega nossas mentes de jeito, acordando-nos para o surrealismo de ainda estarmos enfrentando um problema de, no mínimo, 50 anos atrás - com alguns avanços, felizmente, mas ainda com um desnecessariamente alto gasto de suor, saliva e, ocasionalmente, sangue.

3.12.18

Morrissey no Rio


Tinha que ser ele. Meu artista favorito, o homem que, sem saber, escreve e canta sobre como me sinto. Foi ele o protagonista do primeiro show internacional que vi na vida, aos 45 anos de idade. Semana passada, para ser mais exato.

Fui de Uberlândia ao Rio de Janeiro apenas para ver Morrissey. Parecia-me bastante apropriado que seu show coroasse o bom momento que tenho vivido. O prolongado período de privações que passei ficou pra trás e senti que, depois de anos apenas acompanhando as notícias sobre os shows de meus artistas favoritos no país, era chegada a hora de me dar tal presente.


Na noite do dia 30 de Novembro, chegar à Fundição Progresso foi tranquilo. Entrar foi tranquilo. Comprar bebida foi tranquilo, quem diria? A casa de shows, vizinha dos famosos arcos da Lapa, estava cheia, mas não de um jeito insuportável. Sendo um espaço pequeno, qualquer lugar em volta do palco era um bom lugar.


Pontualmente às 22h (britânicos > humanos), depois de uma sequência de vídeos antigos que já testavam nossos corações (a Fundição quase veio abaixo quando tocou "Rebel Rebel", de David Bowie), Morrissey entrou em cena, cantando "William, It Was Really Nothing". A partir daí, clássicos dos Smiths e da carreira solo, entremeados com trabalhos mais recentes (futuros clássicos, arrisco dizer). Sua atual banda (Boz Boorer e Jesse Tobias, guitarras; Matt Walker, bateria; Mando Lopez, baixo; e Gustavo Manzur, teclados) é uma metralhadora de rock and roll, fazendo a cama onde Morrissey deita seus ainda afinadíssimos vocais.

Obviamente, as três menções aos Smiths foram recebidas com urros entusiasmados: a impecável versão de "How Soon Is Now?" me levou às lágrimas, enquanto "Is It Really So Strange?" foi pura diversão. Os fãs se alternam entre respeitosa e barulhenta adoração, ora pulando e cantando juntos nas músicas mais animadas, ora em silenciosa reverência, como durante "Life Is a Pigsty" (um momento absolutamente catártico, com a banda impondo o peso grave que a faixa pede, enquanto Morrissey se esmera nos falsetes finais).

O improvável sucesso (número 1 na Inglaterra) de sua versão de "Back on the Chain Gang", dos Pretenders, foi comemorado por Morrissey, que ainda teve tempo e simpatia para assinar LPs dos fãs e brincar com a rivalidade entre cariocas e paulistas (ao anunciar o show em São Paulo, dois dias depois, ouviu algumas vaias e perguntou: "Como assim? Vocês amam São Paulo!“, dando a risadinha sacana que lhe é característica).

Houve uma surpreendente concessão ao passado distante: Viva Hate, o primeiro disco solo, completou 30 anos em 2018 e teve duas semi-obscuridades resgatadas: "Dial-a-Cliché" e "Break Up the Family". Durante "The Bullfighter Dies", do complicado World Peace Is None of Your Business (2014), imagens da crueldade das touradas, de tão impactantes, por vezes distraíam do que aconteciam no palco.


A temperatura só baixava um pouco nas músicas menos conhecidas, como "Munich Air Disaster 1958" e "If You Don't Like Me, Don't Look at Me". Engana-se quem pensa que a plateia era formada apenas por quarentões órfãos dos tais "bons tempos": tinha muita gente de 20 e poucos anos por lá. Como todo bom clássico, Morrissey vem renovando seu público com os anos, e a alegre recepção a "Spent the Day in Bed", do álbum Low In High School (2017), serve como prova de que jovens e coroas podem superar conflitos de gerações, quando é por uma boa causa.

Ultimamente, Morrissey tem feito algumas declarações bastante infelizes e pode ser que, daqui a não muito tempo, ele esteja babaca demais para que eu o tolere. Por enquanto, e apenas por decisão particular minha, ainda não chegamos a tal ponto. Ele está idoso (59), boatos sobre saúde frágil e aposentadoria estão sempre rondando, então, seria agora ou, talvez, nunca mais. O que sei é que terminei esta noite com Morrissey bastante feliz, sentindo aquela euforia típica de quando vivemos um dia realmente importante em nossas vidas.


SETLIST

01 - William, It Was Really Nothing
02 - Alma Matters
03 - I Wish You Lonely
04 - Is It Really So Strange?
05 - Hairdresser on Fire
06 - Sunny
07 - How Soon Is Now?
08 - Back on the Chain Gang
09 - The Bullfighter Dies
10 - If You Don't Like Me, Don't Look at Me
11 - Munich Air Disaster 1958
12 - Dial-a-Cliché
13 - Jack the Ripper
14 - Hold On to Your Friends
15 - Break Up the Family
16 - Spent the Day in Bed
17 - Life Is a Pigsty
18 - Something Is Squeezing My Skull
19 - Jacky's Only Happy When She's Up on the Stage
20 - Everyday Is Like Sunday
21 - First of the Gang to Die

11.11.18

Rita Lee - Uma Autobiografia


Rita Lee foi uma de minhas primeiras descobertas no rock and roll. O Babilônia (1978) tocava fácil na vitrola de casa, e auto-intitulado disco do ano seguinte, com "Mania de Você", "Doce Vampiro" e "Chega Mais", mais ainda. Era fácil gostar dela: a Globo massificava seus hits em trilhas de novelas e programas de auditório, Rita era uma figura sorridente e exótica e, hoje eu sei, era uma mulher furando um pesado bloqueio de testosterona. Havia, ainda, o óbvio ululante de que suas músicas eram muito boas.

Rita passou por todos os previsíveis altos e baixos de uma carreira na música. Esteve por cima da carne seca e esteve na sarjeta. Gravou clássicos indeléveis e porcarias inomináveis. Enquanto escrevo, percebo a razão de seu "sumiço" em minha vida: na ocasião da mudança de Feira de Santana para Ibotirama, em fins de 1984, meu pai vendeu nosso belo aparelho de som e, bisonhamente, deu de lambuja nossa imensa coleção de vinis, de onde constavam uma carrada de álbuns maravilhosos.

Acabo de me dar conta, por tabela, de onde vem o desapego que, ocasionalmente, me faz doar generosas porções de minha coleção de quadrinhos. Maldita genética.

Tendo sido integrante de uma das bandas fundamentais do rock brasileiro, Os Mutantes, é claro que Rita Lee teria uma montanha de boas histórias, que não só podia como devia contar - afinal, a imprensa sempre foi bastante impiedosa com ela, negando-se a "perdoá-la" pela "heresia" de deixar Os Mutantes e fazer sucesso sozinha.

Rita Lee - Uma Autobiografia é, portanto, um livro obrigatório, com o ponto-de-vista de alguém que viveu aquelas coisas e não apenas pesquisou e/ou opinou sobre elas. Por todo o livro, existem alfinetadas aos tais "viúvos dos Mutas" que Rita tanto despreza - e não só jornalistas: Rita não poupa desafetos ou "amigos", com uma franqueza que só é permitida a quem tomou muito na cara antes de deixar de ser trouxa.

Só não pense que o livro tem um tom desiludido ou amargo. Todas as histórias e observações de Rita são pontuadas por agradável humor, mesmo quando ela se autodeprecia - um hábito recorrente. Rita escreve como se conversasse com o leitor, com sua linguagem informal e cheia de pequenas licenças ao inglês, herdado do pai (tudo devidamente traduzido em notas de rodapé).

Não há autocondescendência ao falar dos problemas com drogas ou bebidas: Rita admite que, diversas vezes, se drogou ou encheu a cara apenas porque sim (e porque, afinal, o alcoolismo é uma doença de cuja vigilância não se pode relaxar - e Rita relaxava pra caramba, especialmente quando tudo estava bem).

Enquanto os problemas com a Censura Federal e os militares, entre os anos 60 e 80, são tranquilamente expostos, os problemas com a Polícia Mililtar em Aracaju, durante seu último show, em 2012, permanecem um tabu. Rita reclama do tratamento da imprensa ao caso e, aparentemente, escreve sua versão do caso, mas o texto está todo "riscado", impossibilitando a leitura.


Por fim, se é que ainda precisávamos de alguma, o livro é mais uma apaixonada declaração de amor e respeito pelo namorado de décadas, Roberto de Carvalho. A sintonia e o voraz apetite sexual do casal foi matéria-prima de diversas canções de sucesso, mas, acima disso, Roberto trouxe à vida de Rita uma estabilidade e tranquilidade que só ela mesma seria capaz de sabotar - como, de fato, por diversas vezes, sabotou.

Curtindo a velhice longe da música, Rita acumula orgulhos e arrependimentos, mas nem disso faz drama. Ela entende e curte muito o fato de que sempre fez o que queria - uma vitória invejável, considerando o tempo em que viveu e sua condição de "bicho esquisito" que "todo mês sangra", num mundo essencialmente masculino.

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RITA LEE - UMA AUTOBIOGRAFIA
Rita Lee
Globo Livros